sábado, 13 de março de 2010

As formas da natureza

Herdei do meu pai o gosto pela observação das formas da natureza e pela sua valorização em termos estéticos. No caso desta fotografia, trata-se do resto de uma árvore que foi atingida por um relâmpago e que, depois, com o passar dos anos, foi sofrendo desgaste devido à humidade e aos seres vivos. Ainda temos inúmeras peças deste tipo que foram recolhidas em diversas regiões de Angola. Este tronco, por exemplo, veio do Cubal, uma cidade localizada entre Benguela e o Huambo.

No período das chuvas, quase invariavelmente, depois do almoço, o céu começava a escurecer, ficando de um cinzento chumbo carregado. Havia uma serra que podiamos observar da nossa casa que deixava de ser visível nesses momentos. Depois caia um fortissimo aguaceiro, acompanhado de relâmpagos e trovões. Por este motivo, todas as casas tinham para-raios. Aliás, no Cubal ocorriam todos os anos acidentes graves. As trovoadas eram tão estridentes que os copos batiam uns nos outros, dentro dos armários, e o telefone tilintava. Mas estas tempestades tropicais demoravam pouco tempo e a elas seguiam-se fins de tarde muito agradáveis, caracterizados por uma atmosfera com menos humidade. Era nesta altura que os meus pais gostavam de ir dar uma volta por algum local perto. Recordo-me que a savana ficava deslumbrante nas suas diversas tonalidades de verde e com a vida animal na sua máxima pujança. Também tenho presente o aroma - uma mistura de terra molhada e de vegetação em desenvolvimento. Nestes passeios encontravam-se frequentemente árvores que tinham sido atingidas por descargas eléctricas, muitas delas eram autênticas esculturas. Recordo-me do meu pai ter tentado convencer, mas sem grande sucesso, a colocarem uma dessas árvores num dos jardins da cidade.

Confesso que tenho saudades destas tempestades tropicais. Em Lisboa, as trovoadas são sempre muito "tímidas". Talvez por ter nascido, no período das chuvas, sinto estas tempestades como um ritual da natureza que passa da intempérie mais avassaladora para uma fase de acalmia e rejuvenescimento. Porém, em Lisboa, chove dias e dias sem parar, como tem acontecido este Inverno. Ficamos mais com a ideia de que nos vamos diluir em tanta água, do que com qualquer outro tipo de sensação revigorante.

Neste contexto, recordei-me de uns pequenos bolos que a minha mãe fazia - os bolos da tia Boa Hora. Para a sua preparação são necessários os seguintes ingredientes: 250 g de açúcar, 250 g de farinha, 2 colheres de sopa de azeite, 2 ovos, 1 colher de sopa de fermento, 1 colher de sopa de erva-doce moída, 1 colher de sopa de canela, 1 cálice de Vinho do Porto. Juntam-se muito bem todos os ingredientes, tendo o cuidado do último ser o Vinho do Porto. Tendem-se pequenos bolos que se levam ao forno num tabuleiro forrado de papel vegetal antiaderente. Levam cerca de 15 minutos a assar.

2 comentários:

Tuquinha disse...

o meu marido como penso já lhe ter dito está no Huambo...faz a descrição das trovoadas exactamente como a fá...os cheiros, a acalmia após as mesmas...ele diz-me que são cheiros tão caracteristicos que só mesmo lá para entender...
já tenho um caderninho pronto para anotar todas estas recitinhas da sua mãe...(título do caderninho: memórias doces de uma querida) este caderninho é só para mim...
Os bolinhos vou fazer qualquer dia......
beijinhos para as duas e bom fim de semana

isabel disse...

Que fabulosa memória! Quase que lhe sinto o cheiro e a frescura de uma paisagem revigorada pelas fortes tempestades, através das suas palavras!E para acompanhar tão bela viagem dos sentidos, em boa Hora vieram estes bolinhos deliciosos!!
beijinho.