sábado, 23 de janeiro de 2010

"Artilharia pesada" para bolos



Hoje vivemos num universo culinário dominado pelo silicone. Existem formas dos mais diversos formatos e cores, que podemos dobrar e torcer, capazes de ficarem mesmo nas posições mais indesejáveis e instáveis. Muitas vezes facilitam a acção da gravidade, assim como favorecem a génese de tensões laterais de que resultam forças que actuam sobre os nossos preparados, deixando-os num estado de lamentável deformação só comparável às dobras e fracturas que afectam as rochas da crosta terrestre. São contudo suaves ao tacto e muito leves, sem necessitarem de grandes esforços em termos de limpeza, uma vez que até as podemos colocar na máquina da loiça. As cores também são apelativas - é o tropicalismo em toda a sua exuberância. Porém a minha relação com as formas de silicone não tem sido pautada pelo sucesso, como já deu para perceber. Alguns bolos terminaram aos bocados e necessitaram de ser disfarçados. Não é que isto não aconteça com outro tipo de recipientes, mas os de silicone vêm à partida acompanhados com uma publicidade que nos remete para um mundo de facilidades no processo de desenformar bolos.

Paralelo a este universo do silicone também encontramos o das formas revestidas a teflon, que garantem resolver o problema das mãos gordurosas e enfarinhadas, com que ficamos depois de untar e polvilhar as formas tradicionais de alumínio. Na maior parte das vezes funcionam bem, mas quando o conteúdo é precioso ou a ocasião não permite erros eu prefiro utilizar as antigas estratégias da minha mãe. Untar primeiro a forma, depois forrá-la toda com papel vegetal, deixando uma pequena margem de fora, barrando de novo este papel com gordura, caso não se trate de um tipo de papel já preparado para cozinha. É a segurança máxima!

Também começa a surgir agora uma outra família de formas. Mais elitistas e revivalistas. Formas que reproduzem peças antigas, que podemos encontrar nas cozinhas dos palácios e das casas nobres. Leonardo da Vinci já falava nelas nos seus putativos cadernos culinários. São feitas em metal à semelhança das que imitam, mas depois são cobertas tanto exteriormente como interiormente por uma camada de tinta ou de material antiaderente, que as tornam mais fáceis de cuidar.

Ao olhar para este mundo das formas não o posso deixar de contrastar com aquilo que chamo de artilharia pesada para fazer bolos. Nem sempre os fogões tinham um forno. Aliás, fogões eléctricos são uma invenção recente. Vivi em muitos locais onde só existia electricidade à noite, e, a horas limitadas. Por isso, as geladeiras, quando existiam, funcionavam a petróleo. Era pois necessário arranjar outros processos para cozer os bolos. As fotografias anteriores reproduzem uma peça que se punha em cima dos bicos do fogão sobre a qual se encaixava uma forma de alumínio, com duas asas, coberta por uma tampa que possuía uma espécie de clarabóia, que permitia visualizar o interior durante a cozedura. Também um sistema de buracos laterais na forma e na tampa, que se poderiam fazer coincidir ou não, permitia regular a temperatura no interior. Mas foi deste instrumental tão rude e primitivo surgiram autênticas maravilhas, como o bolo de cenoura que aminha mãe fazia.

Nesta receita eram utilizadas 2 chávenas de cenoura ralada, 1 chávena de óleo de milho, 2 chávenas de farinha de trigo, 2 chávenas de açúcar, 3 ovos e 1 colher de sopa de fermento em pó. A cenoura era em primeiro lugar ralada. Depois batiam-se, em conjunto, os ovos, o óleo e a cenoura ralada. Juntava-se então o açúcar e voltava-se a mexer. Por último, adicionava-se a farinha peneirada com o fermento,  e, mesmo no final, um pouco de essência de baunilha. Colocava-se a massa numa forma untada de manteiga e polvilhada de farinha, que ia forno durante 40 minutos (temperatura 180ª-200ºC).



Como todas as receitas esta também foi evoluindo com o passar dos anos. Hoje substituimos 1/2 chávena de cenoura ralada por igual quantidade de coco ralado ligeiramente tostado numa frigideira, para lhe avivar o sabor.

Há um aspecto ao qual dou particular significado que é o aroma que emerge de uma cozinha. E na verdade há que confessar que este tipo de bolos, devido à quantidade de açúcar e à baunilha, deixam na minha casa lembranças de uma época em que quase todos os dias eram feitos bolos, porque como já referi o lanche era uma refeição muita apreciada, como aliás continua a ser.

3 comentários:

Tuquinha disse...

estou deslumbrada com o seu blogue.Gostei...Gostei muito e não deixarei de o consultar todos os dias...
beijos

Tuquinha disse...

eu tenho uma forma igual a essa que era da minha mãe....
diga-me por favor: ainda a utiliza? eu gostava de a utilizar mastenho receio de não me entender com o tempo de cozedura...pode dizer-me alguma coisa sobre isso?
obrigada e beijos

Fa disse...

Muito obrigada pelas suas palavras de estímulo. Quanto à forma, de acordo com as indicações da minha mãe, no início deve ter os buracos laterais fechados, mas a meio da cozedura devem ser abertos para ajudar o bolo a "secar". É uma questão de experimentar com um bolo relativamente simples.