sábado, 13 de fevereiro de 2010

Jacarés, porcos e outra bicharada


Enquanto estiveram em Angola os meus pais habitaram em vários locais, com predominância para o distrito do Quanza Sul, mas também passaram pelo Uíge, Benguela e Luanda. Nem sempre viveram em cidades, a maior parte do tempo foi passado em terras pequenas do interior, a que se designava de forma usual como o "mato". Por isso, as minhas memórias não são as de uma urbanita típica. Isto vem a propósito de justificar o título que dei a esta entrada "jacarés, porcos e outra bicharada".

A determinada altura, não sei bem explicar porquê, mas é provável que alguém lhes tenha oferecido e para não serem antipáticos não o recusaram, os meus pais passaram a ter um jacaré como animal de estimação. O dito réptil, que não era muito grande, vivia num espaço com vegetação e água, sendo alimentado principescamente com carne de caça ou mesmo com galinhas na falta da primeira. Mas a despesa que dava e as preocupações de segurança fizeram com que o oferecessem rapidamente. Não me recordo do pobre jacaré, mas ainda temos algumas fotografias dele. Isto para dizer que sempre vivi rodeada de animais, uns mais exóticos do que outros.

Como as lojas não abundavam por aqueles "matos" fora e o dinheiro também não era muito, as pessoas presenteavam-se com porcos, cabritos, coelho, galinhas, ovos, etc.. O resultado era que passado pouco tempo depois de estar a viver num determinado local já existia uma série de bicharada em casa. O problema é que com excepção das galinhas, sempre olhei para estes seres como animais de estimação, a quem gostava de dar um nome e de acompanhar no seu dia a dia. Claro que esta afeição pelos animais não me permitia imaginar que algum dia um deles fosse parar ao meu prato. Hoje reconheço e agradeço a enorme sensibilidade dos meus pais por nunca me terem feito viver um drama desse tipo. Por isso, sempre que mudavam de localidade viam-se obrigados a vender toda aquela bicharada que se tinha acumulado. Mas nunca faltava comprador porque estavam sempre muito bem alimentados.

Talvez devido a esta minha proximidade com este tipo de animais achei de grande violência um filme que chegou a ter algum sucesso há alguns anos atrás - "O porquinho Babe". Quase que me levantei e saí do cinema, porque pareceu-me uma história muito cruel alimentar um animal para depois o comer, mas curiosamente as pessoas com quem estava não compreenderam a minha reacção e até lhes pareceu um filme muito "ternurento". Ainda não me tornei vegetariana, porém não como muita carne e filmes com animais é algo que evito ver.

A propósito de porcos recordo-me do Ébo, na região do Amboim, onde acabámos por ter uma série de porquinhos que todos os dias necessitavam de ser alimentados. Porque embora pudessem andar à solta não nos podemos esquecer que estes animais eram presa fácil e muito apetecida para os felinos e outros predadores que por lá rondavam. Principalmente à noite em que precisavam de ficar bem protegidos.

A receita que hoje fiz tem exactamente a ver com um rolo de carne, neste caso de porco. É uma cedência ao meu lado mais ligado ao que agora se designa como biocentrismo senciente. Mas neste meu projecto de reprodução das receitas da minha mãe terei de enveredar por essa via com frequências. Aliás, também considero que em termos de saúde deve haver o cuidado de ingerir proteínas animas, por serem as mais completas. Mas voltando ao rolo de carne, de acordo com a versão original que encontro no livro da minha mãe e que eu alterei, deveria ter utilizado: 200 g de carne de vaca, 300 g de carne de porco, 50 g de linguiça, 100g de queijo ralado, 1 cálice de vinho do Porto, 4 ovos, 20 bolachas de água e sal, 50 g de toucinho fumado, 1 colher de chá de fermento em pó, noz moscada, sal e pimenta. As carnes e a linguiça crua deveriam ser passadas pela máquina de picar, acrescentando-se todos os outros ingredientes. Depois de bem ligado deveria ter feito um croquete grande que enrolaria num pano de algodão de forma à carne ficar bem junta. As pontas deveriam ser atadas com um fio que depois se deveria prender às asas de um tacho onde cozeria em banho maria, mas sem tocar na água colocada no fundo do tacho. Deveria cozer durante uma hora ou pouco mais. Logo que cozido deveria retirar-se e deixar arrefecer dentro do pano. Só se retiraria do pano quando estivesse frio. Seria depois coberto com molho de tomate. Pode-se dizer por esta descrição que é uma receita típica dos anos sessenta, hoje não há tempo, pelo menos em casa, para este tipo de preparações.


Assim, fiz algumas simplificações. Mas posso dizer que o produto final é um rolo de carne com um sabor extraordinário. Não tem nada que ver com os rolos de carne normais que fazemos, e, muito menos com aqueles que comemos em restaurantes. Utilizei 1 kg de lombo de porco picado a que juntei 2 ovos inteiros, 10 bolachas trituradas, 1 linguiça (chouriço fino e pequeno) também triturada em conjunto com as bolachas, 2 cálices de vinho do Porto, 100 g de queijo parmesão ralado, 1 colher de chá de fermento em pó e a noz-moscada. Esta quantidade carne deu para fazer dois rolos que coloquei num tabuleiro forrado com papel vegetal de cozinha. Por cima de cada rolo coloquei pequenas nozes de manteiga. Levei ao forno cerca de 45 minutos.

Sem comentários: