domingo, 28 de fevereiro de 2010

O vestido de noiva


Esta é mais uma das estórias do Bocoio. Um dia uma amiga da minha mãe foi convidada para madrinha de um casamento, tendo a noiva de imediato referido que teria muita dificuldade em conseguir o vestido com que tinha sonhado. Para além de dificuldades económicas também não existia uma modista à altura da tarefa, nem lojas com tecidos adequados para este efeito. A futura madrinha da noiva lembrou-se de desafiar a minha mãe, para as duas, com a ajuda dos moldes da BURDA, fazerem o vestido. Só que não estavam à espera que a noiva estivesse a sonhar com um vestido comprido, com uma cauda longa. Porém, como já se tinham envolvido na situação e a noiva estava irredutível quanto a este aspecto, não tiveram outra solução senão enfrentar o problema.

Recordo-me de termos ido ao Lobito de propósito para comprar o tecido e os restantes adereços que seriam necessários. Depois foram tardes passadas em casa dessa amiga em que eu recordo que para me entreterem davam-me livros e um frasco com cascas de laranja cristalizadas. Infelizmente nunca apreciei muito estas últimas, mas recordo-me dos livros de cromos do filho dessa amiga, mais velho do que eu, e com os quais ficava deslumbrada. Uma outra paixão que tinha era a das bonecas de papel. Estas compravam-se em folhas, com os respectivos vestidos, que depois se recortavam. Sempre adorei estas bonecas, com as quais me realizava enquanto "estilista".

As bonecas de papel da imagem superior são uma das peças que eu mais valorizo no meu "arquivo" de objectos. Foram-me dadas pela minha professora no Bocoio e tinham sido feitas pela filha, que salvo erro estava na altura a estudar Belas Artes, em Portugal. Foram sempre conservadas como um bem precioso e posso dizer que o seu estado não sofreu alteração desde que me foram oferecidas há muitos anos atrás. Todas as roupas e as respectivas bonecas foram desenhadas e coloridas manualmente. Nesta colecção também existia um vestido de noiva, desenhado a lápis, com uma perfeição e um pormenor extraordinários.

Quanto ao trabalho de costura este acabou por chegar ao fim e ainda hoje quando olho para uma fotografia da noiva, tirada comigo, penso que continua a ser um vestido muito elegante e actual. Realizou-se o sonho da enorme cauda. Mas infelizmente os pagens, eu e um amigo, não tinhamos sido avisados de que deveriamos continuar a segurar na cauda mesmo que no momento da entrada na igreja caísse um enorme aguaceiro. Recordo que a nossa actuação não foi brilhante! Achámos que também estávamos muito elegantes e por isso não podíamos molhar as nossas roupas. Assim, resolvemos desatar a correr logo que saímos do carro, deixando a noiva a segurar a enorme cauda.

Para além deste acidente foi um casamento cheio de estórias, que ainda hoje são recordadas com grande diversão pelos seus protagonistas principais. Todas as senhoras tinham feito fatos especiais para o casamento e tinham decidido levar chapéu. Recordo da minha mãe ter feito um chapéu com um formato de cone a partir de um outro de palha que se preparava para deitar fora. Cortou-o, forrou-o com um tecido branco e outro preto transparente, rematando com um pregador roxo e uma pluma. Foi uma surpresa quando entrou na igreja. Mas as estórias foram inúmeras, alimentando muitas conversas nos meses seguintes.

A receita que vou associar a esta entrada é a de um bolo que a minha mãe faz sempre em ocasiões especiais e que eu gosto muito. Penso que já o coloquei noutro blogue, mas desta vez a fotografia é original, isto é este bolo foi mesmo feito pela minha mãe.
Para este bolo são necessários os seguintes ingredientes: 500 g de açúcar, 250 g de miolo de amêndoa, 9 gemas de ovos, 250 g de batatas cozidas e raladas, 50 g de manteiga, 4 claras de ovos, 1 colher de chá de fermento. Bate-se o açúcar com as gemas até formar um creme. Deita-se em seguida a manteiga derretida e continua-se a bater. Mistura-se depois a batata cozida, passada pelo passe-vite e envolve-se bem, ligando a batata ao creme. Junta-se o fermento e as claras em castelo bem firme, envolvendo lentamente, e, por último, a amêndoa sem pele passada pela máquina. Depois da massa bem ligada vai ao forno em forma redonda sem buraco, com o fundo forrado de papel vegetal, também untado e polvilhado de farinha. Deve cozer em forno médio durante 50 a 55 minutos. A minha cobertura preferida para este bolo é de chocolate preto.

terça-feira, 23 de fevereiro de 2010

Novos materiais: o deslumbramento pelos plásticos


Nos anos sessenta os plásticos popularizaram-se e começaram a ser usados em objectos do quotidiano. Já neste blogue me referi aos ramos de rosas e outras flores de plástico, com que se colocavam numa jarra em cima dos frigoríficos ou mesmo noutros locais mais dignos. Também me recordo que nos anos sessenta se usavam umas pequenas peças de plástico que se encaixavam nos ponta dos saltos, que na altura eram finos, para deste modo os proteger do rápido desgaste que tinham. Estas pequenas “cápsulas” eram colocadas em água quente para dilatarem e depois enfiadas nos saltos dos sapatos. Havia de várias dimensões mas eram sempre transparentes.


Mas importante mesmo foi o aparecimento das BICs em dois modelos, as clássicas, alaranjadas e de ponta final, e, as “cristal” para quem gostava que escrever com mais paixão. Estas primeiras esferográficas eram usadas até ao limite da tinta, como um bem precioso ao qual era necessário prolongar a vida útil. Quando deixavam de escrever “aqueciam-se” ligeiramente, com a chama de um fósforo para que a tinta voltasse a fluir. Os plásticos invadiram também os materiais escolares. A ardósia e a madeira dos estojos de lápis foram substituídas pelas cores berrantes dos novos produtos.

Claro que às cozinhas também começaram a chegar objectos de plástico. Mas fomos muito para além disso. Digamos que alguns dos primeiros objectos procuraram imitar e tornar acessível às classes com menos posses alguns produtos de luxo, como o caso do pano de tabuleiro da imagem superior. Só posteriormente começou a existir uma maior preocupação em tirar partido das suas propriedades. E nesta fase pode dizer-se que se atingiu o excesso. Por exemplo, recordo-me de na casa do Cubal a mobília de sala ser forrada a plástico cor-de-rosa, sendo extremamente desconfortável num clima quente, para além de qualquer outro tipo de considerações de natureza estética. Noutro local em que vivi, o Songo, toda a “loiça” era de baquelite, sendo os pratos das mais variadas cores. Este material, inventado em 1909, foi dos primeiros plásticos a usado em produtos de cozinha e mesa devido à sua resistência ao calor. Hoje algumas destes artigos são peças de colecção.

É provável que o pão de fiambre e queijo a que me vou referir tenha repousado alguma vez sobre um prato de baquelite de cor berrante. Aliás, pensando bem não me recordo deste material existir em cores discretas! Quando se vendia em conjuntos cada peça tinha a sua cor, valorizando-se os contrastes.


Para este pão utilizei: 2 e mais 1/4 chávenas de farinha, 6 ovos, 1 chávena bem cheia de margarina, 1 e mais 1/2 chávena de leite, 1 e mais 1/2 chávena de fiambre cortado aos cubos pequenos, 4 colheres de chá de fermento em pó, 1 prato pequeno de queijo ralado e sal q.b.. Bati a margarina até ficar esbranquiçada. Depois juntei os ovos interiros, uma a um, batendo bem. A seguir, adicionei a farinha peneirada com o fermento, alternando com o leite. Por último, juntei o queijo ralado e um pouco de sal refinado. Mexi bem e levei ao forno numa forma de bolo inglês forrada com papel vegetal.

Cinderelas, bailes e rainhas de festas


Este fim-de-semana assisti a um programa na televisão onde foi referida a cidade do Cubal, um dos locais onde vivi em Angola. Parte da importância deste local era devido ao facto do Caminho de Ferro de Benguela ter aqui algumas das suas oficinas mais importantes. Anteriormente o Cubal tinha-se destacado por ser um concelho rico, devido às grandes fazendas de sisal. Porém, com o aparecimento de materiais plásticos o valor deste produto caiu nos mercados internacionais de tal forma que o Cubal que eu conheci no início da década de setenta já pouco tinha a ver com o seu esplendor anterior.

Como todas as terras tinha as suas particularidades e uma delas era o facto de ser uma cidade com uma percentagem grande de população jovem, o que lhe dava grande animação. Existiam mesmo dois grandes clubes, que estavam constantemente a organizar festas. Por isso, me lembrei de um dos livros que mais gostava quando era criança, A Gata Borralheira, que permitia visualizar em relevo os episódios mais significativos desta estória. Também no cubal existiam cinderelas e príncipes que durante a semana estudavam e pensavam no próximo baile.

Recordo-me que eram sempre festas que começavam ao sábado, salvo erro depois do jantar, e tinham continuação no dia seguinte à tarde, prolongando-se depois até à meia-noite. Hora à qual as cinderelas eram conduzidas rapidamente para casa, por uns pais já cansados de tanta festa. O programa não variava muito. As famílias reservavam as suas mesas e levavam por vezes alguns doces ou salgados para a ceia e para o lanche. Mas o mais importante era o baile, intervalado com o jogo do loto, com concursos diversos e com sorteios. Os boletins do loto serviam depois para votar na rainha da festa, que seria coroada no final com direito a uma faixa colorida e, às vezes, a uma coroa de cartão.

Tenho que confessar que nunca gostei muito de dançar, mas no Cubal não havia como escapar a estes bailes. Entre aqueles de que me lembro melhor destaco o baile de finalistas do Colégio Eça de Queiróz em que participei também como organizadora. Fizémos mesmo um ensaio, em minha casa, para nos prepararmos para a valsa inicial. Os pares já estavam definidos. Entrámos na sala dois a dois, as meninas todas elegantes de vestidos compridos e com uma flor branca no cabelo e os rapazes com o seus melhores fatos. Ainda tenho fotografias desse baile e recordo-me mesmo de quem foram a rainha e o rei.

Durante a semana o clube da cidade era utilizado como cinema. Dia sim, dia não passavam um novo filme. É bom recordar que nestes locais se assistia todo o tipo de filmes. Lembro-me que na altura os meus pais ainda não me deixavam ver filmes para maiores de 16 anos, porque ainda não os tinha, mas via todos os outros. Por isso, tive uma formação muito eclética em termos cinematográficos. Lembro-me de várias séries de filmes, como os da Rita Pavone, da Marisol, do Joselito e de um outro actor italiano que já não recordo o nome, mas que era muito popular. Para além destes, mais próprios para cinderelas, também via filmes de cowboys, de mosquetereiros, do Zorro, etc..

É provável que numa destas festas a minha mãe tenha levado um bolo que fazia com muita frequência - o bolo de milho. Hoje quando faço estas receitas fico espantada com a quantidade açúcar e de ovos que levam, mas a verdade é que são esses ingredientes, juntamente com a utilização de manteiga de boa qualidade, que dão a estes bolos um excelente sabor. Tenho que confessar que cada dentada numa destas fatias me remete para uma outra época, sem com isso ser transportada por qualquer sentimento de saudosismo. Afinal através da realização de um simples bolo temos a possibilidade de regressar ao passado sempre que quisermos.

Mas regressemos ao bolo de milho, para o qual foi necessário utilizar os seguintes ingredientes: 400 g de açúcar, 100 g de farinha de milho fina, 7 ovos, 120 g de manteiga, 2 colheres de café de fermento em pó e 1 colher de chá de essência de baunilha. Bati muito bem o açúcar com a manteiga, a qual tinha sido previamente derretida. Acrescentei os ovos, um a um, batendo bem entre cada adição. Por último juntei a farinha peneirada com o fermento e a essência de baunilha. Bate-se bem e leva-se ao forno, em forma untada, de preferência também forrada de papel vegetal para cozinha. Embora o tivesse feito numa forma redonda penso que o mais seguro é fazer em forma de bolo inglês forrada. Coze em forno médio, durante 45 a 60 minutos, tendo o cuidado de não o deixar cozer muito.

sábado, 20 de fevereiro de 2010

Os cadernos da 2º classe: exercícios de imaginação ou o mais perfeito delírio



Sempre que nas minhas arrumações encontro os cadernos da 2º classe, feita numa escola oficial no Bocoio, perto do Lobito, vila a que já me referi, não resisto a voltar a lê-los e a pensar como foi possível que, vivendo em África, me tivessem ensinado aquele tipo de coisas. Talvez por isso quando passei uns meses em Portugal, na minha 3ª classe, tive um enorme supresa ao visualizar um rebanho de ovelhas. Eu não estava preparada para ver um grupo de animais sujos, mal encarados e fazendo uns ruídos que não eram de todo agradáveis. Os meus pais tiveram de me convencer com uma certa veemência que as ovelhas eram mesmo assim. Eu, graças ao que me tinham ensinado, imaginava os referidos animais como seres de um branco imaculado, balindo de forma melódica e comportando-se como uma espécie de animais de companhia. A verdade é que até hoje não simpatizo com as ovelhas! Acho que fui atraiçoada! Prefiro muito mais as cabrinhas, com as quais nunca me enganaram.

Os meus cadernos da 2ª classe explicam em parte esta situação. Imaginem o que é para uma criança que vive numa região tropical fazer uma cópia em que escrevia o seguinte: “Tinha chegado o mês de S. João. Tudo quanto o olhar abrangia eram campinas de trigo loiro, salpicadas de onde a onde de papoilas vermelhas, em que pousavam grandes borboletas brancas. Era o tempo das ceifas. O trigo estava maduro. Homens e mulheres de foice em punho, iam segando a seara, que outros atrás vinham enfeixando em molhos. O calor era de abrasar, mas o rosto das ceifeiras, tisnado do Sol, era sempre aberto e jovial. Grandes carradas de trigo em feixes iam chegando à eira, para a debulha”. Há que confessar que é preciso uma imaginação delirante para uma criança recriar um cenário deste tipo, quando o que podia observar à sua volta naquela região era a savana e plantações de sisal. Ainda hoje esta realidade não me diz nada! Para além disso esta imagem de mulheres que trabalham arduamente, mas estão sempre de rosto “aberto e jovial”, coloca a pergunta, e os homens? Seria óbvio que estariam  com um ar carrancudo. Para rematar esta brilhante lição ainda me colocaram perante o seguinte problema: “O Rui matou 60 borboletas em 5 dias. Quantas matou por dia?” Pergunto-me como sobrevivemos e até conseguimos ser pessoas com algumas preocupações ambientais depois de tudo isto! Talvez seja um bom tema de investigação, tentar compreender como se consegue “inverter” as mensagens que recebemos na escola, para o bem e para o mal.

Numa das lições seguintes, tanto quanto me apercebo pelos cadernos elas eram temáticas, fiz uma cópia sobre a “defesa dos frutos”. Há aqui alguma contradição entre a mortandade infligida às borboletas e a preocupação com os frutos. Ou talvez não! Provavelmente é uma visão antropocêntrica. O Homem come os frutos mas não se alimenta de borboletas. Na cópia desse dia escrevia o seguinte: “O Fernando António colheu no quintal uma bela maçã e preparava-se para a saborear com seus irmãos. Foi a que primeiro amadureceu. Tinha cor tão rosada que fazia crescer água na boca. Devia ser deliciosa. Mas, ao abri-la, verificaram que tinha dentro uma lagarta! - Mal empregada! - disseram todos. Quem havia de dizer que era bichosa! Examinaram a casca da maçã. Não se via nenhum orifício. Por onde teria entrado a lagarta?” É sem dúvida uma história plena de mistério, porém revela um certo espírito científico. A causa para tão estranha presença foi explicada pelo pai das crianças no ditado que a professora fez posteriormente: “aquelas borboletas tão lindas, atrás das quais vós correis na primavera, puseram os ovos nas flores da macieira, quando às flores sucederam os frutos, esses ovos tão pequeninos que mal se viam ficaram dentro deles e lá se desenvolveram até nascerem as lagartas”. Não sei se esta explicação estará certa em termos biológicos, mas a seguir foi-nos pedido para fazer uma redacção que não era mais do que a resposta a duas perguntas colocadas pela professora. Numa delas eramos questionadas sobre a utilidade dos frutos, tendo eu respondido que “os frutos servem para a gente comer e para se fazer doces e compotas”. Isto já era revelador de que estava ali a futura autora de um blogue de culinária!

Claro que com toda esta estória sobre maçãs só poderia terminar num bolo feito com a referida fruta e desta vez não estava "bichosa". Aliás, já nem é preciso explicar às  crianças como é que as lagartas aparecem na fruta, porque essa é uma realidade desconhecida pelo menos para quem só frequenta supermercados. Mas regressando à receita do bolo de maçã, esta é mais uma daqueles bolos que eu não poderei fazer com frequência. Já me tinha esquecido como este bolo é agradável! Deveria ter ido inteiro para casa dos meus pais, porém eles só o irão ver no blogue o que é uma tortura. Amanhã compensá-los-ei com outro bolo para o lanche.


No bolo de maçã utilizei os seguintes ingredientes: 4 ovos, o mesmo peso dos ovos em açúcar e em farinha, 2 colheres de chá de fermento em pó, 100 g de manteiga, 3 maçãs grandes. Primeiro bati o açúcar com a manteiga derretida. Juntei, alternadamente, os ovos, um a um, e a farinha misturada com o fermento. À parte, cortei as maçãs em fatias finas. Untei uma forma, neste caso de bolo inglês mas que poderia ter sido redonda, e polvilhei de farinha. Por segurança, também a forrei com papel vegetal, que voltei a untar no fundo. Polvilhei este fundo com açúcar e canela, coloquei uma camada de de maçãs fatiadas e depois deitei metada da massa. Voltei a colocar outra camada de maçãs e depois o resto da massa. Terminei com nova camada de maçã. Polvilhei com açúcar e canela e levei ao forno durante cerca de 50 minutos.

segunda-feira, 15 de fevereiro de 2010

Objectos a transportar numa viagem: água, uma lanterna e um bom farnel


Este velhinho filtro de água, que há muitos anos não é utilizado, acompanhou sempre os meus pais em Angola nas suas inúmeras deslocações. É possível que até tenham tido vários, porque algum se pode ter partido, mas este é o que permanece. No seu interior possui um filtro (vela) que permite à água passar da parte de cima para o espaço inferior. Recordo-me que estas "velas" eram substituídas regularmente, e, para além disso também eram esfregadas com uma escova para retirar os resíduos que nelas se depositavam. Enquanto fui criança a minha mãe não confiava de todo na sua eficácia, por isso a água era previamente fervida durante quinze minutos. Eram cuidados necessários num país tropical onde as águas em zonas do interior ainda não eram tratadas.

A escolha desta imagem resultou de ter falado ontem com o meu pai sobre as viagens que se faziam por picadas às vezes em muito mau estado, em particular, na altura das chuvas. Havia uma expressão muito engraçada que em Angola se utilizava com grande convicção, quando uma estrada até nem tinha muitos buracos - pode ficar descansado que a estrada é uma pista. Este conceito de pista faria certamente sorrir muita gente se imaginassem o tipo de estradas a que era aplicado. Isto tudo para referir como era importante providenciar alguns objectos básicos quando se fazia uma viagem, como água potável fresca guardada em termos. Mas também era preciso pensar numa lanterna, porque nunca se sabia quando o carro iria avariar e se ficariamos no meio do mato, assim como uma merenda pelas mesmas razões. Passados tantos anos confesso que ainda sou atraída pela compra de lanternas, considero-as um objecto extremamente útil mesmo viajando em auto-estradas.

Era comum sair de casa cedo para evitar as horas de maior calor. Por isso, nesses dias madrugava-se para haver tempo de preparar todas as "bicuatas". Os meus pais compensavam-me por estes horários tão vespertinos, com a possibilidade de beber um Cê Cê Mel, que não era mais do que uma bebida de chocolate enlatada. Na altura era possuída por uma falta de apetite crónica, com a qual lhes infernizei a vida. Apenas apreciava coisas muito apaladadas, que não me permitiam comer a toda a hora.

Mas regressemos às viagens. O primeiro carro do meu pai em Angola, foi uma carrinha Morris, já muito velha, cujas portas fechavam com dificuldade. Uma delas era mesmo atada com um cordel. Também tinha outras particularidades, como só pegar de marcha atrás ou por vezes ficar sem travões. Nestes locais mais do interior não existiam mecânicos, por isso cada um aprendia a desembaraçar-se sozinho. O meu pai ainda mantém alguma criatividade, que eu julgo em excesso, quando há qualquer avaria no carro. Quanto a mim telefono logo para o seguro ou para uma oficina conhecida, mas o meu pai continua a ter tendência para a improvisação, como se estivesse ainda num meio sem soluções fáceis.

Nas viagens nunca se sabia muito bem se era possível cumprir horários uma vez que existiam sempre muitos imprevistos. Por exemplo, lembro-me que uma viagem do Cubal para Benguela poderia necessitar de muito mais horas caso tivesse chovido o que provocava que algumas zonas mais baixas ficassem alagadas, impossibilitando mesmo a passagem a camiões e a jeeps. Para precaver situações deste tipo a minha mãe preparava sempre um farnel, do qual fazia muitas vezes parte o folar à minha moda que a seguir transcrevo. Esta é uma receita com origem na serra algarvia, que eu comi toda a minha vida. A massa fica com um sabor delicioso, devido à aguardente e à erva-doce.


Como ingredientes a receita original refere: 250 g de açúcar, 500 g de farinha de trigo; 4 ovos; 1 colher de sopa de fermento em pó; 1 colher de sopa de margarina; 1 colher de sopa de banha; 2 colheres de sopa de azeite; 1 cálice de aguardente; 1 colher de sobremesa de erva-doce moída; 2 colheres de chá de canela; 1 pitada de sal. Eu resolvi substituir a banha por uma outra colher de sopa de azeite e também não coloquei sal.
Juntei as gorduras e levei ao microondas alguns segundos apenas para derreter a manteiga. Juntei depois a gordura aos outros ingredientes, tendo tido o cuidado de peneirar a farinha com o fermento, e amassei muito bem até obter um produto homogéneo. Envolvi num pouco de farinha e deixei descansar 15 minutos. Fiz duas bolas que enfarinhei e levei ao forno a cozer em temperatura moderada. Também poderia ter colocado a massa numa forma untada de manteiga e polvilhada de farinha.

sábado, 13 de fevereiro de 2010

Jacarés, porcos e outra bicharada


Enquanto estiveram em Angola os meus pais habitaram em vários locais, com predominância para o distrito do Quanza Sul, mas também passaram pelo Uíge, Benguela e Luanda. Nem sempre viveram em cidades, a maior parte do tempo foi passado em terras pequenas do interior, a que se designava de forma usual como o "mato". Por isso, as minhas memórias não são as de uma urbanita típica. Isto vem a propósito de justificar o título que dei a esta entrada "jacarés, porcos e outra bicharada".

A determinada altura, não sei bem explicar porquê, mas é provável que alguém lhes tenha oferecido e para não serem antipáticos não o recusaram, os meus pais passaram a ter um jacaré como animal de estimação. O dito réptil, que não era muito grande, vivia num espaço com vegetação e água, sendo alimentado principescamente com carne de caça ou mesmo com galinhas na falta da primeira. Mas a despesa que dava e as preocupações de segurança fizeram com que o oferecessem rapidamente. Não me recordo do pobre jacaré, mas ainda temos algumas fotografias dele. Isto para dizer que sempre vivi rodeada de animais, uns mais exóticos do que outros.

Como as lojas não abundavam por aqueles "matos" fora e o dinheiro também não era muito, as pessoas presenteavam-se com porcos, cabritos, coelho, galinhas, ovos, etc.. O resultado era que passado pouco tempo depois de estar a viver num determinado local já existia uma série de bicharada em casa. O problema é que com excepção das galinhas, sempre olhei para estes seres como animais de estimação, a quem gostava de dar um nome e de acompanhar no seu dia a dia. Claro que esta afeição pelos animais não me permitia imaginar que algum dia um deles fosse parar ao meu prato. Hoje reconheço e agradeço a enorme sensibilidade dos meus pais por nunca me terem feito viver um drama desse tipo. Por isso, sempre que mudavam de localidade viam-se obrigados a vender toda aquela bicharada que se tinha acumulado. Mas nunca faltava comprador porque estavam sempre muito bem alimentados.

Talvez devido a esta minha proximidade com este tipo de animais achei de grande violência um filme que chegou a ter algum sucesso há alguns anos atrás - "O porquinho Babe". Quase que me levantei e saí do cinema, porque pareceu-me uma história muito cruel alimentar um animal para depois o comer, mas curiosamente as pessoas com quem estava não compreenderam a minha reacção e até lhes pareceu um filme muito "ternurento". Ainda não me tornei vegetariana, porém não como muita carne e filmes com animais é algo que evito ver.

A propósito de porcos recordo-me do Ébo, na região do Amboim, onde acabámos por ter uma série de porquinhos que todos os dias necessitavam de ser alimentados. Porque embora pudessem andar à solta não nos podemos esquecer que estes animais eram presa fácil e muito apetecida para os felinos e outros predadores que por lá rondavam. Principalmente à noite em que precisavam de ficar bem protegidos.

A receita que hoje fiz tem exactamente a ver com um rolo de carne, neste caso de porco. É uma cedência ao meu lado mais ligado ao que agora se designa como biocentrismo senciente. Mas neste meu projecto de reprodução das receitas da minha mãe terei de enveredar por essa via com frequências. Aliás, também considero que em termos de saúde deve haver o cuidado de ingerir proteínas animas, por serem as mais completas. Mas voltando ao rolo de carne, de acordo com a versão original que encontro no livro da minha mãe e que eu alterei, deveria ter utilizado: 200 g de carne de vaca, 300 g de carne de porco, 50 g de linguiça, 100g de queijo ralado, 1 cálice de vinho do Porto, 4 ovos, 20 bolachas de água e sal, 50 g de toucinho fumado, 1 colher de chá de fermento em pó, noz moscada, sal e pimenta. As carnes e a linguiça crua deveriam ser passadas pela máquina de picar, acrescentando-se todos os outros ingredientes. Depois de bem ligado deveria ter feito um croquete grande que enrolaria num pano de algodão de forma à carne ficar bem junta. As pontas deveriam ser atadas com um fio que depois se deveria prender às asas de um tacho onde cozeria em banho maria, mas sem tocar na água colocada no fundo do tacho. Deveria cozer durante uma hora ou pouco mais. Logo que cozido deveria retirar-se e deixar arrefecer dentro do pano. Só se retiraria do pano quando estivesse frio. Seria depois coberto com molho de tomate. Pode-se dizer por esta descrição que é uma receita típica dos anos sessenta, hoje não há tempo, pelo menos em casa, para este tipo de preparações.


Assim, fiz algumas simplificações. Mas posso dizer que o produto final é um rolo de carne com um sabor extraordinário. Não tem nada que ver com os rolos de carne normais que fazemos, e, muito menos com aqueles que comemos em restaurantes. Utilizei 1 kg de lombo de porco picado a que juntei 2 ovos inteiros, 10 bolachas trituradas, 1 linguiça (chouriço fino e pequeno) também triturada em conjunto com as bolachas, 2 cálices de vinho do Porto, 100 g de queijo parmesão ralado, 1 colher de chá de fermento em pó e a noz-moscada. Esta quantidade carne deu para fazer dois rolos que coloquei num tabuleiro forrado com papel vegetal de cozinha. Por cima de cada rolo coloquei pequenas nozes de manteiga. Levei ao forno cerca de 45 minutos.

quinta-feira, 11 de fevereiro de 2010

De braço dado com as bonecas regionais portuguesas


Tenho uma pequena colecção de bonecas regionais portuguesas, que me foram oferecidas, algumas delas, em festas infantis, realizadas a bordo dos navios que faziam as viagens entre Portugal e Angola. Não têm nada a ver com as bonecas de plástico que agora enconntramos nas lojas para turistas. São feitas de palha e forradas a pano, com roupas coloridas e bordadas. Mas o aspecto que mais me atrai é o facto de ambos os braços estarem dobrados de forma a permitir abraçá-las umas às outras.Não sei qual a origem deste tipo de característica, provavelmente pretender-se-ia passar a ideia de uma nação com várias identidades, mas em que todos partilhariam os mesmos valores. Na linha daquilo que os livros da escola primária da época do Estado Novo também transmitiam, reforçando de igual modo uma visão idílica do meio rural.

Mas regressemos às viagens de barco em que era necessário ocupar os passageiros, à semelhança do que hoje se faz nos voos intercontinentais. Para além dos banhos de piscina e das quatro refeições, servidas  em sala própria (pequeno-almoço, almoço, lanche e jantar), era necessário providenciar um programa de actividades diário. Assim, existia mesmo um pequeno jornal diário, distribuído a todos os passageiros, onde se dava conta do que os esperava em cada dia, assim como de algumas notícias gerais com carácter mais lúdico. Recordo entre outros concursos o das milhas. Faziamos apostas sobre o número de milhas que o barco fazia em cada dia, sendo o nome do vencedor divulgado no dia seguinte com grande destaque quer no jornal quer num quadro localizado num dos convés. Para além disso, existiam o bingo e as corridas de cavalos (madeira), assim como uma série de campeonatos de ping-pong e diversos outros jogos. É provável que numa dessas actividades tenha sido "premiada" com estas bonecas.

Normalmente os navios faziam paragens no Funchal, nas Canárias e em S.Tomé e Príncipe. Recordo que as primeiras vezes em que aportei no Funchal ainda não existia cais acostável. O navio ficava ao largo e os passageiros que queriam ir a terra faziam-no em lanchas. Paralelamente existia todo um comércio organizado de pequenos barcos que vinham vender frutas e bordados. Por vezes, chegavam mesmo a deixar esses comerciantes subirem a bordo e a colocarem as suas mercadorias no convés. Quando isso não era permitido as vendas eram feitas de igual modo, mas a partir dos pequenos barcos e com a ajuda de algum tripulante que servia de intermediário no transporte dos produtos até ao comprador. Recordo-me de uma das viagens em que a chegada ao Funchal foi um alívio, depois de dois dias de mau tempo. A minha mãe decidiu ir a terra beber um sumo de maracujá, que ela sempre considerou como um bom remédio para os enjoos. Contudo, a agitação do mar tornou a pequena viagem de lancha até à cidade, assim como o respectivo regresso ao navio, passado poucas horas, numa odisseia, porque era necessário esperar por uma onda favorável para conseguir mudar de embarcação, sem perigo de cair ao mar. Porém, lá conseguimos beber os nossos sumos de maracujá e fazer algumas pequenas compras.

A viagem depois continuava, com escala nas Canárias ou, o que era o mais normal, em S. Tomé e Príncipe. Ali nunca saímos do barco, porque a distância até terra era maior e a minha mãe tinha medo dos temporais que nesta região eram frequentes. Mas à semelhança da Madeira também vinham vender produtos a bordo. Lembro-me de colares de sementes e de objectos feitos com carapaça de tartaruga. Mas o que mais retive foi o colorido e a animação no convés, transformado por alguma horas em feira de produtos tropicais.

Todos este reboliço não interferia com os horários das refeições, nomeadamente com a  hora do lanche. Quando esta se aproximava começava-se a sentir um cheiro a pães de leite acabados de fazer e a bolos ainda quentes. Era absolutamente irresístivel e todos se precipitavam para a sala das refeições, logo que era anunciada a sua abertura. Hoje lembrando-me desses lanches e das duas bonecas (alentejanas) resolvi fazer o bolo alentejano, cuja receita se encontra no livro da minha mãe. Para este bolo são necessários: 150 g de açúcar, 3 ovos; 250 g de farinha de trigo; 2 dl de mel; 1 dl de azeite; 1 colher de sopa de fermento em pó; 1 colher de chá de canela; raspa de 1 limão. Batem-se as gemas com o açúcar até obter um creme esbranquiçado. Adicionam-se, aos poucos, o mel e o azeite. Bate-se tudo muito bem. Junta-se a canela, a raspa do limão e a farinha peneirada com o fermento. Por último, juntam-se as claras em castelo bem firme. Coze em lume brando durante 30 a 40 minutos. Nota: pode ser necessário colocar um papel de alumínio em cima, depois dos 20 minutos de cozedura, se começar a ficar muito dourado.

domingo, 7 de fevereiro de 2010

Assim se viveram os anos sessenta na pacata vila do Bocoio


Já não sei onde me ofereceram esta mobília de sala, mas ela retrata bem os materiais e o gosto dos anos sessenta, fazendo-me lembrar um período em que vivi no Bocoio também designada à época por Vila Sousa Lara. Relativamente perto do Lobito e encostada a uma serra onde em tempos mais recuados teria ocorrido um desatre de avião, o concelho do Bocoio era um local com características particulares. A maior parte da região era ocupada por fazendas de sisal, de portugueses e de alemães, onde realizavam torneios de tiro aos pratos e aos pombos. Estes torneios eram ocasiões especiais em que as senhoras se procuravam evidenciar pela elegância. Uma espécie de corridas de Ascott à escala do Bocoio! Aliás, esta vila era conhecida por ter uma excelente equipa de basquette, vencedora de muitos torneios a nível regional, e, também por ter um clube onde se realizavam grandes bailes. Tudo era motivo para a realização de uma festa! Recordo-me que na altura, como os meus 8 ou 9 anos, sonhava em ser estilista. Por isso, os bailes e os torneios eram ocasiões que aguardava com ansiedade, pela quantidade de ideias que recolhia para desenhar os meus modelos de roupa e de sapatos.

No Bocoio existia, à semelhança de muitas outras terras em Angola, o ritual da abertura dos "fardos". Estes eram caixotes de roupas usadas que vinham dos Estados Unidos. Encontravam-se as coisas mais incríveis nestes "fardos". Fardas cheias de galões dourados, vestidos de baile, etc.. Lembro-me de uma loja que sempre que abria um "fardo" avisava a minha mãe e uma amiga para serem as primeiras a escolher. Era deste modo que a partir destas roupas usadas, mas às vezes de muito boa qualidade, se faziam autênticas maravilhas com a ajuda dos moldes da BURDA. Inclusivamente chapéus, porque era de "bom tom", mas principalmente porque era  "divertido" ir aos casamentos de chapéu. Também eu me transformei numa criança elegante, com vestidos que a minha mãe me fazia cheios de rendas, bordados e folhos. Até cheguei a ganhar um concurso de máscaras de Carnaval.  Tudo isto é bastante curioso em termos sociológicos, se atendermos à dimensão da terra e à sua população que era muito reduzida.

Uma das imagens do Bocoio que nunca me esqueci foi a dos chás que se tomavam numa pensão, onde estiveram instalados, durante meses, uns amigos dos meus pais. Todas as tardes, na altura do cacimbo, um grupo de cerca de seis a oito pessoas amigas, juntava-se para beber chá preto (Likungo) e comer wafers de baunilha de pacotes. No fundo, era apenas uma desculpa para conviverem e trocarem impressões sobre os últimos acontecimentos. Este ritual era noutras alturas substituído por partidas de ténis, num campo de cimento localizado em frente do hospital e da igreja. Eu costumava andar de patins com o filho de um destes casais, fazendo sempre tristes figuras, porque os meus patins eram todos de plástico e os dele tinham rodas de metal. Mas por segurança nunca me compraram outros patins, achavam que aqueles já permitiam uma velocidade suficiente.  Também recordo que junto deste campo de ténis, que em simultâneo também servia de ringue de patinagem, existia um pequeno busto, em mármore, do Sousa Lara, com um canteiro de violetas africanas a toda a volta. Foi a partir dai que fiquei a gostar de violetas, porque as apanhava diariamente para levar um pequeno ramo para casa.

O Pepetela faz por vezes referência ao Bocoio em alguns dos seus livros. Creio mesmo que os seus pais viviam lá e faziam parte do grupo de amigos dos meus pais. Recordo-os como um casal, que já não era jovem, mas jogava ténis bastante bem. Hoje pensamos que seriam os pais do Pepetela, embora eles na altura fossem bastante discretos relativamente ao filho. Digamos que o curioso nesta pequena vila é o facto de ao viver-se num certo isolamento as pessoas serem obrigadas a tirar partido das mais pequenas coisas.

Como não tenho um molde próprio para fazer waffers, aliás as que se comiam também eram de pacote como já referi, de uma marca cujo símbolo era um trevo de quatro folhas, lembrei-me de associar a esta entrada uns docinhos que a minha mãe fazia - os cortadinhos de Alpiarça, bolos altamente calóricos, típicos de uma época em que ninguém se preocupava com os excessos de açúcar e de gorduras. Para preparar os referidos quadradinhos juntei 500 g de açúcar a 6 ovos inteiros. Bati bem (5 minutos). Depois acrescentei 3 colheres bem cheias de farinha e voltei a bater mais um pouco. Foi ao forno num tabuleiro untado de margarida e forrado com papel vegetal, que também foi untado de margarina e polvilhado de farinha. Depois da massa cozida, o que leva cerca de 40 a 50 minutos, retira-se do tabuleiro e coloca-se  sobre papel vegetal polvilhado de açúcar. Cortam-se triângulos que se enrolam em açúcar.


Penso que os deixei ficar demasiado tempo no forno, mas recordo que eles ficavam com esta cor acastanhada. A partir dos 20 minutos, para não tostarem muito, coloquei uma folha de papel de alumínio em cima. Outro truque que também uso é ir passando com a faca sobre o papel vegetal depois de ter desenformado o bolo. Deste modo consegue-se que o bolo se solte com mais facilidade do papel, principalmente nestes casos em que o excesso de açúcar leva à formação de caramelo, que por vezes se pega ao papel.

sábado, 6 de fevereiro de 2010

Seria uma sereia? Ou seria antes um salmão?


A inspiração para esta entrada veio de um livro que ando a ler e se intitula a "A pesca do salmão no Iémen", da autoria de Paul Tornay e editado pela ASA. Como o nome sugere trata-se de uma sátira absolutamente deliciosa onde se analisam as complexas relações entre ciência e política ao mesmo tempo em que também está implícita uma certa crítica aos valores pelos quais se gere o mundo académico no presente. O protagonista, que dá pelo nome de Dr. Alfred Jones escreveu um artigo sobre os "Efeitos da crescente acidez da água na larva da mosca-de-água", o qual lhe grangeou algum reconhecimento. Porém, a sua vida foi alterada quando lhe pediram para criar um rio com salmões no Iémen. O projecto, de início considerado como absurdo, acabou por ter continuidade. Mas não vou contar aqui mais nada, para não tirar o prazer da leitura a quem se interessar por tão extravagante temática.

Ao olhar para uma pequenina peixeira que faz parte de um trem de cozinha em cobre, que me ofereceram em Angola, imaginei logo uma fotografia com um peixe dentro, cujas extremidades seriam visíveis a partir dos dois extremos do recipiente. Claro que daí a lembrar-me do marcador do livro que referi em cima, foi coisa de um minuto! É provável que em Angola nunca ninguém tenha pensado na absurda ideia de introduzir o salmão nalgum dos rios que atravessam esse país, mas não por falta de imaginação. A propósito recordo-me de uma pequena estória, totalmente delirante, que correu em Luanda nos inícios dos anos setenta - teria aparecido uma sereia numa poça de água e lama. Este episódio era relatado e discutido, por alguns, como algo verosímil. Foi mesmo objecto de notícias na rádio. Neste momento, poderia dar continuidade a esta estória e imaginar que a bela sereia não era mais do que uma salmão perdido, que através de uma eventual rede de canais existentes no interior do globo teria desembocado em pleno caos urbanístico de Luanda, depois de uma chuvada tropical ter deixado alguns vestígios em ruas não alcatroadas.

Mas regressemos à realidade, que era muito menos interessante. Na altura, o salmão era comprado em latas, cuja origem já não recordo. Não era de modo algum um peixe habitual, por isso o pudim de salmão a que a seguir me vou referir era feito unicamente em dias de festa. Até porque as referidas latas de salmão não eram baratas. A receita é excelente, considero-a mesmo como o melhor destino que se pode dar a um salmão depois de capturado. Um destino que o honra ao fazer destacar a plenitude das suas qualidades organoléticas.

Para a confecção deste pudim a minha mãe refere: 2 latas grandes ou 4 pequenas de salmão (750g aproximadamente de salmão fresco); 2 tomates grandes; 2 cebolas, 2 pequenos pães; 1 colher de sopa bem cheia de manteiga; 3 ovos; 1 frasco de pikles; sal, leite e gindungo. Coloca-se a manteiga e a cebola picada a refogar, mas não se deixa alourar. Junta-se então os tomates maduros, sem peles nem sementes, partidos aos bocadinhos, assim como o gindungo (pimenta) e deixa-se refogar o tomate. Depois deita-se dentro o salmão partido em cubos já limpo de peles e espinhas. Envolve-se no refogado e deixa-se ao fogo a tomar gosto e a cozer o salmão caso este não seja de lata. Aliás, nesta última situação é conveniente ir mexendo e desfazendo-se os cubos de salmão para se obter uma consistência mais homogénea. Numa fase posterior, já depois de retirar do lume junta-se o miolo do pão molhado no leite, os ovos inteiros e os pickles partidos aos bocadinhos (3/4 de frasco). Mexe-se tudo muito bem e vai ao forno (200ºC) a cozer em forma lisa untada de manteiga. Ontem usei uma forma de bolo inglês em pirex, que forrei com papel vegetal para cozinha, por isso não necessitei de untar. Só se deve desenformar depois de frio. Nessa altura deve colocar-se a travessa ligeiramente inclinada para escorrer algum excesso de água que resulte do tomate. Quando estiver completamente frio e escorrido, cobre-se como molho de maionese ou molho de tomate e acompanha-se com ervilhas, couve-flor, alface, etc..


 A minha ideia era fazer uma maionese para cobrir o pudim, mas devido a alguns imprevisto não foi possível, por isso o pudim ficou nesta versão minimalista.