sábado, 13 de março de 2010

Sabores em falta

Todos os que já viveram no estrangeiro provavelmente passaram pela experiência de começarem a gostar de algum prato, que antes não apreciavam. No meu caso, foi necessário viver dois anos no Brasil, mais precisamente no Rio Grande do Sul, para começar a apreciar açorda de coentros. Acontecia a mesma coisa com quem vivia em Angola. Lembro-me que a minha mãe de vez enquando era assaltada pelo desejo de comer determinadas iguarias. Normalmente doces. Recordo-me, de que quando vivíamos em Novo Redondo (Sumbe), a minha mãe ter feito Dom Rodrigos. As folhas prateadas de diversas cores eram enviadas de Portugal por uma tia. Também me lembro do meu pai ter conseguido que lhe enviassem folhas de hóstia com os formatos que se usam nos ovos moles de Aveiro. Na altura, tal como hoje era proibido vender estes moldes, mas devido a conhecimentos familiares as ditas folhas de hóstia, extremamente frágeis como devem imaginar, lá conseguiram chegar a Novo Redondo. Como é evidente foi um enorme sucesso quando a minha mãe serviu os ovos moles de Aveiro num almoço. Porém, a estória mais engraçada teve como personagens centrais uns caracóis.

Os meus pais tinham uns amigos que viviam, perto de Novo Redondo, a quem enviaram de Lisboa uma caixa de caracóis. Creio que a encomenda foi transportada por barco, isto é, os caracóis passaram pelo menos por 10 dias de viagens, mais o trajecto de Luanda até Novo Redondo. Essa caixa foi parar lá a casa, porque os referidos amigos só esporadicamente iam à capital do distrito. A minha mãe, como algarvia, é uma entendida nesta matéria de tratar e preparar caracóis. Lembro-me que parte dos caracóis não tinham resistido à viagem, mas os sobreviventes foram principescamente alimentados com alface e farinha. Foram colocados num novo caixote com uma rede em cima, que permitia visualizá-los no interior. Recordo de ter passado dias a olhar para aqueles pequenos animais, controlando as suas tentativas de fuga. Por fim, acabaram cozinhados e foram servidos por certo acompanhados com umas cervejas Cuca, num lanche servido no terraço.

Todas estas recordações surgiram porque a minha mãe esta semana me telefonou, dizendo que tinha saudades de comer pastéis de Londres. Resolvi, por isso, satisfazer este desejo, associando-o à imagem de um serviço de chá (brinquedo), que me ofereceram em criança. Quantos aos pastéis não sei se ficaram exactamente iguais aos originais. Ainda estou à espera do veredito!
Para preparar estes pequenos bolos são necessários os seguintes ingredientes: 300 g de açúcar, 100 g de miolo de amêndoa sem pele e passado pela máquina, 50 g de manteiga, 10 gemas de ovos e 2 claras. Coloca-se o açúcar ao lume com 1/2 litro de água e deixa-se ferver, até atingir um ponto forte. Tira-se o açúcar para fora e mexe-se durante algum tempo, para esfriar um pouco. Adiciona-se em seguida a manteiga e a amêndoa, misturando muito bem. Por último, deitam-se os ovos e as claras previamente misturadas, mas não batidas. Leva-se ao forno, em temperatura moderada, em formas pequenas e untadas de manteiga.

5 comentários:

Babette disse...

Que delícia de história, de receita, de serviço... Doces sentidos!...
Babette

Tuquinha disse...

Mais uma memória tão engraçada, acompanhada de um serviço lindo,lindo e com uns pasteizinhos de sonho..........
beijinhos

Fa disse...

São uns pastéis muito bons. A minha mãe fazia-os com muita frequência. O único reparo que recebi dela é que não os devia ter colocado em formas de papel e também, que deveriam ter sido apresentados virados ao contrário. Eu acho que é importante inovar sempre um pouco ..., mas foi só na apresentação. Bjs

isabel disse...

Que forma mais bela de começar a noite me perdendo nestas deliciosas histórias...Adoro este belíssimo blog! Parabéns!
beijinho.

Fa disse...

Obrigada, Isabel. Bjs