sexta-feira, 26 de março de 2010

Espirais, formigas e argolas


Este ferro de fazer filhoses, que era da minha mãe, está associado a um dos meus maiores insucessos na cozinha. Já fiz várias tentativas, mas o grau de desastre é tal que acabam sempre no caixote do lixo. Segundo as minhas tias o efeito de um prato de filhoses empilhadas, feitas com este ferro, era particularmente bonito. Imagino que sim! Mas por alguma razão obscura, que só um psicanalista conseguiria descobrir, associei este objecto à lembrança de uns biscoitos de azeite, em cuja elaboração eu participava, quando vivíamos no Ébo.

Esta vila, à qual já fiz referência, está localizada numa região de grande beleza paisagística, mas à época era um local com uma população muito reduzida e até mesmo isolado, em termos de acesso a um conjunto de serviços de primeira necessidade. A casa onde vivíamos era enorme, mas há muito que os seus dias de apogeu tinham passado. Construída em adobe, na encosta de uma elevação, tinha à sua frente um jardim que nós designávamos pelos "jardins suspensos da Babilónia". A sua conservação era absolutamente insustentável, por isso as plantas cresciam de uma forma selvagem. Também tinha um pomar, com muitas macieiras, as quais produziam uns frutos bastante ácidos, provavelmente também devido à falta de tratamento.

Em determinadas alturas do ano, devido ao tipo de construção, assistíamos ao espectáculo surpreendente de ver sair das paredes umas salalés bastante bem nutridas, que eram comidas como grande pitéu. Uma amiga nossa que as provou foi capaz de confirmar que o seu paladar lembrava o do marisco. Porém, onde eu pretendo chegar é às formigas, designadas por kissonde. Estas formigas invadiam as casas, aos milhares, enquanto dormíamos. Normalmente era quando se punha um pé no chão que se começavam a sentir as ferroadas, e, as ditas formigas a subirem pelas pernas. Elas entravam pelas frestas das portas e infiltravam-se em todo o lado. A sua picada era bastante forte. Quando ocorriam estas situações, e no Ébo devido ao local onde a casa se encontrava aconteceu várias vezes, era necessário acordar toda a gente e começar a agir de forma rápida. Recordo que se deitava fogo a papéis de jornal e que depois se lançavam baldes de água com creolina. Era um desassossego enquanto a invasão não estava controlada e as formigas dizimadas. Claro que existiam formas de prevenção. A mais comum era colocar cinza à volta das casas. Contavam-se imensas estórias sobre a capacidade de ataque destas formigas e como podiam matar animais já de grande porte. A verdade é que uma invasão de kissonde metia respeito, mesmo não tendo visto o filme a Marabunta.

Era exactamente na cozinha da casa do Ébo, que foi várias vezes invadida pelo kissonde, que eu ajudava a fazer as ditas argolinhas fritas. Para a sua preparação é necessário utilizar os seguintes ingredientes: 4 colheres de sopa de açúcar, 2 colheres de sopa de azeite, 1 colher de sopa de manteiga, 1 colher de sopa rasa de fermento, 2 ovos, 2 colheres de sopa de leite, 2 colheres de sopa de aguardente e farinha q.b.. Misturava-se tudo e ia-se deitando a farinha peneirada com o fermento até se obter uma massa em boa consitência para tender. Estendia-se a massa com um rolo numa tábua enfarinhada e depois cortava-se, com a ajuda de um copo e de, por exemplo, de um descaroçador de maçãs, de forma a obterem-se argolas que se fritavam em óleo quente. A massa deve ficar com uma espessura inferior a 0.5 cm, mas também não pode ficar muito fina, caso contrário é difícil de a colocar na frigideira. No final, ainda quentes, passam-se por açúcar com canela. São excelentes!

3 comentários:

Tuquinha disse...

esta história arrepiou-me um pouco,tenho aversão a tudo que seja picadas...pelo contrário não tenho aversão nenhuma a essas argolinhas que estáo uma delicia de certeza...
beijinhos

isabel disse...

Boa tarde Fa,
Tenho visto nalguns programas que algumas espécies desses pequenos insectos não são nada amigáveis e são de facto capazes de mordidas e picadas extremamente dolorosas! Eu por mim, apenas dou mordidas em iguarias deliciosas, tais como estas argolinhas lindas com que a Fa nos brindou.
Um beijinho e uma boa semana.

Fa disse...

Caras Tuquinha e Isabel. A situação acaba por não ser tão asustadora quando se está no local, mas confesso que quando era criança tinha pesadelos (acordada) com estas formigas. Quanto às argolinhas são excelentes, pelo menos para o meu paladar. Bjs