sábado, 6 de fevereiro de 2010

Seria uma sereia? Ou seria antes um salmão?


A inspiração para esta entrada veio de um livro que ando a ler e se intitula a "A pesca do salmão no Iémen", da autoria de Paul Tornay e editado pela ASA. Como o nome sugere trata-se de uma sátira absolutamente deliciosa onde se analisam as complexas relações entre ciência e política ao mesmo tempo em que também está implícita uma certa crítica aos valores pelos quais se gere o mundo académico no presente. O protagonista, que dá pelo nome de Dr. Alfred Jones escreveu um artigo sobre os "Efeitos da crescente acidez da água na larva da mosca-de-água", o qual lhe grangeou algum reconhecimento. Porém, a sua vida foi alterada quando lhe pediram para criar um rio com salmões no Iémen. O projecto, de início considerado como absurdo, acabou por ter continuidade. Mas não vou contar aqui mais nada, para não tirar o prazer da leitura a quem se interessar por tão extravagante temática.

Ao olhar para uma pequenina peixeira que faz parte de um trem de cozinha em cobre, que me ofereceram em Angola, imaginei logo uma fotografia com um peixe dentro, cujas extremidades seriam visíveis a partir dos dois extremos do recipiente. Claro que daí a lembrar-me do marcador do livro que referi em cima, foi coisa de um minuto! É provável que em Angola nunca ninguém tenha pensado na absurda ideia de introduzir o salmão nalgum dos rios que atravessam esse país, mas não por falta de imaginação. A propósito recordo-me de uma pequena estória, totalmente delirante, que correu em Luanda nos inícios dos anos setenta - teria aparecido uma sereia numa poça de água e lama. Este episódio era relatado e discutido, por alguns, como algo verosímil. Foi mesmo objecto de notícias na rádio. Neste momento, poderia dar continuidade a esta estória e imaginar que a bela sereia não era mais do que uma salmão perdido, que através de uma eventual rede de canais existentes no interior do globo teria desembocado em pleno caos urbanístico de Luanda, depois de uma chuvada tropical ter deixado alguns vestígios em ruas não alcatroadas.

Mas regressemos à realidade, que era muito menos interessante. Na altura, o salmão era comprado em latas, cuja origem já não recordo. Não era de modo algum um peixe habitual, por isso o pudim de salmão a que a seguir me vou referir era feito unicamente em dias de festa. Até porque as referidas latas de salmão não eram baratas. A receita é excelente, considero-a mesmo como o melhor destino que se pode dar a um salmão depois de capturado. Um destino que o honra ao fazer destacar a plenitude das suas qualidades organoléticas.

Para a confecção deste pudim a minha mãe refere: 2 latas grandes ou 4 pequenas de salmão (750g aproximadamente de salmão fresco); 2 tomates grandes; 2 cebolas, 2 pequenos pães; 1 colher de sopa bem cheia de manteiga; 3 ovos; 1 frasco de pikles; sal, leite e gindungo. Coloca-se a manteiga e a cebola picada a refogar, mas não se deixa alourar. Junta-se então os tomates maduros, sem peles nem sementes, partidos aos bocadinhos, assim como o gindungo (pimenta) e deixa-se refogar o tomate. Depois deita-se dentro o salmão partido em cubos já limpo de peles e espinhas. Envolve-se no refogado e deixa-se ao fogo a tomar gosto e a cozer o salmão caso este não seja de lata. Aliás, nesta última situação é conveniente ir mexendo e desfazendo-se os cubos de salmão para se obter uma consistência mais homogénea. Numa fase posterior, já depois de retirar do lume junta-se o miolo do pão molhado no leite, os ovos inteiros e os pickles partidos aos bocadinhos (3/4 de frasco). Mexe-se tudo muito bem e vai ao forno (200ºC) a cozer em forma lisa untada de manteiga. Ontem usei uma forma de bolo inglês em pirex, que forrei com papel vegetal para cozinha, por isso não necessitei de untar. Só se deve desenformar depois de frio. Nessa altura deve colocar-se a travessa ligeiramente inclinada para escorrer algum excesso de água que resulte do tomate. Quando estiver completamente frio e escorrido, cobre-se como molho de maionese ou molho de tomate e acompanha-se com ervilhas, couve-flor, alface, etc..


 A minha ideia era fazer uma maionese para cobrir o pudim, mas devido a alguns imprevisto não foi possível, por isso o pudim ficou nesta versão minimalista.

1 comentário:

Babette disse...

Mais uma história deliciosa acompanhada de uma receita de fazer crescer água na boca!...
Obrigada pelas visitas!
Babette