domingo, 28 de fevereiro de 2010

O vestido de noiva


Esta é mais uma das estórias do Bocoio. Um dia uma amiga da minha mãe foi convidada para madrinha de um casamento, tendo a noiva de imediato referido que teria muita dificuldade em conseguir o vestido com que tinha sonhado. Para além de dificuldades económicas também não existia uma modista à altura da tarefa, nem lojas com tecidos adequados para este efeito. A futura madrinha da noiva lembrou-se de desafiar a minha mãe, para as duas, com a ajuda dos moldes da BURDA, fazerem o vestido. Só que não estavam à espera que a noiva estivesse a sonhar com um vestido comprido, com uma cauda longa. Porém, como já se tinham envolvido na situação e a noiva estava irredutível quanto a este aspecto, não tiveram outra solução senão enfrentar o problema.

Recordo-me de termos ido ao Lobito de propósito para comprar o tecido e os restantes adereços que seriam necessários. Depois foram tardes passadas em casa dessa amiga em que eu recordo que para me entreterem davam-me livros e um frasco com cascas de laranja cristalizadas. Infelizmente nunca apreciei muito estas últimas, mas recordo-me dos livros de cromos do filho dessa amiga, mais velho do que eu, e com os quais ficava deslumbrada. Uma outra paixão que tinha era a das bonecas de papel. Estas compravam-se em folhas, com os respectivos vestidos, que depois se recortavam. Sempre adorei estas bonecas, com as quais me realizava enquanto "estilista".

As bonecas de papel da imagem superior são uma das peças que eu mais valorizo no meu "arquivo" de objectos. Foram-me dadas pela minha professora no Bocoio e tinham sido feitas pela filha, que salvo erro estava na altura a estudar Belas Artes, em Portugal. Foram sempre conservadas como um bem precioso e posso dizer que o seu estado não sofreu alteração desde que me foram oferecidas há muitos anos atrás. Todas as roupas e as respectivas bonecas foram desenhadas e coloridas manualmente. Nesta colecção também existia um vestido de noiva, desenhado a lápis, com uma perfeição e um pormenor extraordinários.

Quanto ao trabalho de costura este acabou por chegar ao fim e ainda hoje quando olho para uma fotografia da noiva, tirada comigo, penso que continua a ser um vestido muito elegante e actual. Realizou-se o sonho da enorme cauda. Mas infelizmente os pagens, eu e um amigo, não tinhamos sido avisados de que deveriamos continuar a segurar na cauda mesmo que no momento da entrada na igreja caísse um enorme aguaceiro. Recordo que a nossa actuação não foi brilhante! Achámos que também estávamos muito elegantes e por isso não podíamos molhar as nossas roupas. Assim, resolvemos desatar a correr logo que saímos do carro, deixando a noiva a segurar a enorme cauda.

Para além deste acidente foi um casamento cheio de estórias, que ainda hoje são recordadas com grande diversão pelos seus protagonistas principais. Todas as senhoras tinham feito fatos especiais para o casamento e tinham decidido levar chapéu. Recordo da minha mãe ter feito um chapéu com um formato de cone a partir de um outro de palha que se preparava para deitar fora. Cortou-o, forrou-o com um tecido branco e outro preto transparente, rematando com um pregador roxo e uma pluma. Foi uma surpresa quando entrou na igreja. Mas as estórias foram inúmeras, alimentando muitas conversas nos meses seguintes.

A receita que vou associar a esta entrada é a de um bolo que a minha mãe faz sempre em ocasiões especiais e que eu gosto muito. Penso que já o coloquei noutro blogue, mas desta vez a fotografia é original, isto é este bolo foi mesmo feito pela minha mãe.
Para este bolo são necessários os seguintes ingredientes: 500 g de açúcar, 250 g de miolo de amêndoa, 9 gemas de ovos, 250 g de batatas cozidas e raladas, 50 g de manteiga, 4 claras de ovos, 1 colher de chá de fermento. Bate-se o açúcar com as gemas até formar um creme. Deita-se em seguida a manteiga derretida e continua-se a bater. Mistura-se depois a batata cozida, passada pelo passe-vite e envolve-se bem, ligando a batata ao creme. Junta-se o fermento e as claras em castelo bem firme, envolvendo lentamente, e, por último, a amêndoa sem pele passada pela máquina. Depois da massa bem ligada vai ao forno em forma redonda sem buraco, com o fundo forrado de papel vegetal, também untado e polvilhado de farinha. Deve cozer em forno médio durante 50 a 55 minutos. A minha cobertura preferida para este bolo é de chocolate preto.

5 comentários:

Babette disse...

Uma receita fantástica e uma história a condizer... mais uma vez faço analogias com as histórias dos meus pais (e minhas tb!...). A brincadeira preferida da minha mãe e da sua melhor amiga (que veio a ser a minha madrinha), era precisamente as bonecas de papel e os seus vestidos de recortar!... qdo éramos pequenas, eu e a minha irmã tb tivemos as nossas bonecas de papel (feitas pela minha mãe) e suas fatiotas. Mas penso que o entusiasmo nunca foi tão grande como o da minha mãe e da madrinha. Enfim, nós já tínhamos outras modernices de brinquedos...
Fica um bolo a experimentar num dia de festa...
Babette

Tuquinha disse...

Com todo o bom gosto demonstrado até aqui, a noiva foi linda de certeza...a sua mãe deve ser uma senhora muito especial, faz-me lembrar a minha em muitos aspectos (e como eu gostaria de a ter ainda comigo...)
Lembranças inesquecíveis não?
O bolinho, esse será para fazer certamente...
beijinhos

Fa disse...

Olá, Babette e Tuquinha
A minha mãe, figura central destas estórias, tem 90 anos, o que já é uma idade muito respeitável. Mas ainda gosta de cozinhar. Este blog está a ser um esforço para manter algumas memórias, que estão com tendência a perder-se.
Quanto ao bolo acreditem que é mesmo bom. Enquanto a Babette tem a sua aletria para os anos eu tenho sempre o bolo de festa. O polme de batata dá-lhe uma certa humidade que o torna num dos melhores bolos de amêndoa que conheço. Adoro a cobertura de chocolate negro por causa do contraste que faz com o doce.

FOFIS disse...

Esse bolo esta com uma cara otima gostei beijos fofis

Fa disse...

Obrigada, também é o meu bolo preferido.