quinta-feira, 11 de fevereiro de 2010

De braço dado com as bonecas regionais portuguesas


Tenho uma pequena colecção de bonecas regionais portuguesas, que me foram oferecidas, algumas delas, em festas infantis, realizadas a bordo dos navios que faziam as viagens entre Portugal e Angola. Não têm nada a ver com as bonecas de plástico que agora enconntramos nas lojas para turistas. São feitas de palha e forradas a pano, com roupas coloridas e bordadas. Mas o aspecto que mais me atrai é o facto de ambos os braços estarem dobrados de forma a permitir abraçá-las umas às outras.Não sei qual a origem deste tipo de característica, provavelmente pretender-se-ia passar a ideia de uma nação com várias identidades, mas em que todos partilhariam os mesmos valores. Na linha daquilo que os livros da escola primária da época do Estado Novo também transmitiam, reforçando de igual modo uma visão idílica do meio rural.

Mas regressemos às viagens de barco em que era necessário ocupar os passageiros, à semelhança do que hoje se faz nos voos intercontinentais. Para além dos banhos de piscina e das quatro refeições, servidas  em sala própria (pequeno-almoço, almoço, lanche e jantar), era necessário providenciar um programa de actividades diário. Assim, existia mesmo um pequeno jornal diário, distribuído a todos os passageiros, onde se dava conta do que os esperava em cada dia, assim como de algumas notícias gerais com carácter mais lúdico. Recordo entre outros concursos o das milhas. Faziamos apostas sobre o número de milhas que o barco fazia em cada dia, sendo o nome do vencedor divulgado no dia seguinte com grande destaque quer no jornal quer num quadro localizado num dos convés. Para além disso, existiam o bingo e as corridas de cavalos (madeira), assim como uma série de campeonatos de ping-pong e diversos outros jogos. É provável que numa dessas actividades tenha sido "premiada" com estas bonecas.

Normalmente os navios faziam paragens no Funchal, nas Canárias e em S.Tomé e Príncipe. Recordo que as primeiras vezes em que aportei no Funchal ainda não existia cais acostável. O navio ficava ao largo e os passageiros que queriam ir a terra faziam-no em lanchas. Paralelamente existia todo um comércio organizado de pequenos barcos que vinham vender frutas e bordados. Por vezes, chegavam mesmo a deixar esses comerciantes subirem a bordo e a colocarem as suas mercadorias no convés. Quando isso não era permitido as vendas eram feitas de igual modo, mas a partir dos pequenos barcos e com a ajuda de algum tripulante que servia de intermediário no transporte dos produtos até ao comprador. Recordo-me de uma das viagens em que a chegada ao Funchal foi um alívio, depois de dois dias de mau tempo. A minha mãe decidiu ir a terra beber um sumo de maracujá, que ela sempre considerou como um bom remédio para os enjoos. Contudo, a agitação do mar tornou a pequena viagem de lancha até à cidade, assim como o respectivo regresso ao navio, passado poucas horas, numa odisseia, porque era necessário esperar por uma onda favorável para conseguir mudar de embarcação, sem perigo de cair ao mar. Porém, lá conseguimos beber os nossos sumos de maracujá e fazer algumas pequenas compras.

A viagem depois continuava, com escala nas Canárias ou, o que era o mais normal, em S. Tomé e Príncipe. Ali nunca saímos do barco, porque a distância até terra era maior e a minha mãe tinha medo dos temporais que nesta região eram frequentes. Mas à semelhança da Madeira também vinham vender produtos a bordo. Lembro-me de colares de sementes e de objectos feitos com carapaça de tartaruga. Mas o que mais retive foi o colorido e a animação no convés, transformado por alguma horas em feira de produtos tropicais.

Todos este reboliço não interferia com os horários das refeições, nomeadamente com a  hora do lanche. Quando esta se aproximava começava-se a sentir um cheiro a pães de leite acabados de fazer e a bolos ainda quentes. Era absolutamente irresístivel e todos se precipitavam para a sala das refeições, logo que era anunciada a sua abertura. Hoje lembrando-me desses lanches e das duas bonecas (alentejanas) resolvi fazer o bolo alentejano, cuja receita se encontra no livro da minha mãe. Para este bolo são necessários: 150 g de açúcar, 3 ovos; 250 g de farinha de trigo; 2 dl de mel; 1 dl de azeite; 1 colher de sopa de fermento em pó; 1 colher de chá de canela; raspa de 1 limão. Batem-se as gemas com o açúcar até obter um creme esbranquiçado. Adicionam-se, aos poucos, o mel e o azeite. Bate-se tudo muito bem. Junta-se a canela, a raspa do limão e a farinha peneirada com o fermento. Por último, juntam-se as claras em castelo bem firme. Coze em lume brando durante 30 a 40 minutos. Nota: pode ser necessário colocar um papel de alumínio em cima, depois dos 20 minutos de cozedura, se começar a ficar muito dourado.

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