domingo, 7 de fevereiro de 2010

Assim se viveram os anos sessenta na pacata vila do Bocoio


Já não sei onde me ofereceram esta mobília de sala, mas ela retrata bem os materiais e o gosto dos anos sessenta, fazendo-me lembrar um período em que vivi no Bocoio também designada à época por Vila Sousa Lara. Relativamente perto do Lobito e encostada a uma serra onde em tempos mais recuados teria ocorrido um desatre de avião, o concelho do Bocoio era um local com características particulares. A maior parte da região era ocupada por fazendas de sisal, de portugueses e de alemães, onde realizavam torneios de tiro aos pratos e aos pombos. Estes torneios eram ocasiões especiais em que as senhoras se procuravam evidenciar pela elegância. Uma espécie de corridas de Ascott à escala do Bocoio! Aliás, esta vila era conhecida por ter uma excelente equipa de basquette, vencedora de muitos torneios a nível regional, e, também por ter um clube onde se realizavam grandes bailes. Tudo era motivo para a realização de uma festa! Recordo-me que na altura, como os meus 8 ou 9 anos, sonhava em ser estilista. Por isso, os bailes e os torneios eram ocasiões que aguardava com ansiedade, pela quantidade de ideias que recolhia para desenhar os meus modelos de roupa e de sapatos.

No Bocoio existia, à semelhança de muitas outras terras em Angola, o ritual da abertura dos "fardos". Estes eram caixotes de roupas usadas que vinham dos Estados Unidos. Encontravam-se as coisas mais incríveis nestes "fardos". Fardas cheias de galões dourados, vestidos de baile, etc.. Lembro-me de uma loja que sempre que abria um "fardo" avisava a minha mãe e uma amiga para serem as primeiras a escolher. Era deste modo que a partir destas roupas usadas, mas às vezes de muito boa qualidade, se faziam autênticas maravilhas com a ajuda dos moldes da BURDA. Inclusivamente chapéus, porque era de "bom tom", mas principalmente porque era  "divertido" ir aos casamentos de chapéu. Também eu me transformei numa criança elegante, com vestidos que a minha mãe me fazia cheios de rendas, bordados e folhos. Até cheguei a ganhar um concurso de máscaras de Carnaval.  Tudo isto é bastante curioso em termos sociológicos, se atendermos à dimensão da terra e à sua população que era muito reduzida.

Uma das imagens do Bocoio que nunca me esqueci foi a dos chás que se tomavam numa pensão, onde estiveram instalados, durante meses, uns amigos dos meus pais. Todas as tardes, na altura do cacimbo, um grupo de cerca de seis a oito pessoas amigas, juntava-se para beber chá preto (Likungo) e comer wafers de baunilha de pacotes. No fundo, era apenas uma desculpa para conviverem e trocarem impressões sobre os últimos acontecimentos. Este ritual era noutras alturas substituído por partidas de ténis, num campo de cimento localizado em frente do hospital e da igreja. Eu costumava andar de patins com o filho de um destes casais, fazendo sempre tristes figuras, porque os meus patins eram todos de plástico e os dele tinham rodas de metal. Mas por segurança nunca me compraram outros patins, achavam que aqueles já permitiam uma velocidade suficiente.  Também recordo que junto deste campo de ténis, que em simultâneo também servia de ringue de patinagem, existia um pequeno busto, em mármore, do Sousa Lara, com um canteiro de violetas africanas a toda a volta. Foi a partir dai que fiquei a gostar de violetas, porque as apanhava diariamente para levar um pequeno ramo para casa.

O Pepetela faz por vezes referência ao Bocoio em alguns dos seus livros. Creio mesmo que os seus pais viviam lá e faziam parte do grupo de amigos dos meus pais. Recordo-os como um casal, que já não era jovem, mas jogava ténis bastante bem. Hoje pensamos que seriam os pais do Pepetela, embora eles na altura fossem bastante discretos relativamente ao filho. Digamos que o curioso nesta pequena vila é o facto de ao viver-se num certo isolamento as pessoas serem obrigadas a tirar partido das mais pequenas coisas.

Como não tenho um molde próprio para fazer waffers, aliás as que se comiam também eram de pacote como já referi, de uma marca cujo símbolo era um trevo de quatro folhas, lembrei-me de associar a esta entrada uns docinhos que a minha mãe fazia - os cortadinhos de Alpiarça, bolos altamente calóricos, típicos de uma época em que ninguém se preocupava com os excessos de açúcar e de gorduras. Para preparar os referidos quadradinhos juntei 500 g de açúcar a 6 ovos inteiros. Bati bem (5 minutos). Depois acrescentei 3 colheres bem cheias de farinha e voltei a bater mais um pouco. Foi ao forno num tabuleiro untado de margarida e forrado com papel vegetal, que também foi untado de margarina e polvilhado de farinha. Depois da massa cozida, o que leva cerca de 40 a 50 minutos, retira-se do tabuleiro e coloca-se  sobre papel vegetal polvilhado de açúcar. Cortam-se triângulos que se enrolam em açúcar.


Penso que os deixei ficar demasiado tempo no forno, mas recordo que eles ficavam com esta cor acastanhada. A partir dos 20 minutos, para não tostarem muito, coloquei uma folha de papel de alumínio em cima. Outro truque que também uso é ir passando com a faca sobre o papel vegetal depois de ter desenformado o bolo. Deste modo consegue-se que o bolo se solte com mais facilidade do papel, principalmente nestes casos em que o excesso de açúcar leva à formação de caramelo, que por vezes se pega ao papel.

1 comentário:

Anónimo disse...

Também morei no Bocoio nos anos 60. A Autora retratou com fidelidade a vida nesta pacata e simpática Vila. Graças ao pouco conhecimento sobre blogs, internet, etc, não consegui saber o nome da autora. Obrigado por me recordar de uma vila onde cheguei em 1960. No facebook existe um grupo do Bocoio do qual faço parte.