quarta-feira, 13 de janeiro de 2010

A pequena cozinheira


Não recordo quando me deram este jogo - A pequena cozinheira (massa para modelar), que não é mais do que uma caixa de plasticinas de várias cores, acompanhadas com instrumentos de cozinha em miniatura e com sugestões para realização de alguns “bolos”. Curiosamente, passado mais de quarenta anos, o meu primeiro blogue de culinária teve como designação - A minha cozinha. Premonição ou simples coincidência? A verdade é que sempre vivi num universo em que a cozinha e todas as preparações que ali decorriam, desempenharam um papel central. Quando revejo álbuns de fotos antigas, invariavelmente encontro fotografias tiradas à mesa, em que não são os convivas os protagonistas centrais, mas sim os pratos que se encontram dispostos, conforme as situações, de forma mais ou menos organizada.

Mas regressando à A pequena cozinheira, na contracapa da tampa é referido o seguinte: “Todas as crianças, especialmente as meninas, gostam de fazer cozinhados. Para elas criou a MAJORA este interessante brinquedo composto por: massa de modelar, formas, faca e rolo giratório. Para facilitar os trabalhos, fornece-se também um cartão hidráulico, bem como alguns modelos coloridos de especialidades que se podem fazer. Com efeito, com todo este material podem-se fazer vários tipos de bolos, biscoitos, pudins, etc., conforme os modelos acima referidos, e ainda todos aqueles que a imaginação da criança idealizar”. A leitura deste texto remete assumidamente para um universo cultural onde a elaboração de bolos era uma tarefa feminina, mas o que julgo ser mais fascinante é a questão do formato, como elemento que diferencia os vários tipos de doces. Há uma abstracção da composição e dos próprios processos de fabrico, para que nos centremos na forma dos bolos ou dos biscoitos como elemento com significado. É curioso pensar na questão desde esta perspectiva. Só um brinquedo infantil nos poderia conduzir a este nível de simplicidade, que na verdade nos remete para problemas de representação da realidade. De repente recordei-me do filósofo Nelson Goodman que afirma não ser possível representar qualquer objecto na plenitude das suas propriedades. É pena que assim seja, pelo menos no universo gastronómico.


E falando em propriedades, na caixa também é referido que a “massa de modelar da MAJORA é um produto inalterável, pois não amolece nem endurece, conservando por tempo indeterminado a sua maleabilidade. Além disso, não tem cheiro desagradável, não é oleoso nem suja as mãos”. É impressionante, porque é possível confirmar que todas estas afirmações são verdadeiras. A plasticina ainda pode ser moldada, mantendo a sua textura e ao mesmo tempo não possui qualquer odor. Não quero fazer comparações, até porque não sou especialista nestas matérias, mas parece-me que a qualidade da plasticina já não é a mesma actualmente!

Ao olhar para os modelos sugeridos fui quase que impelida para um pudim amarelo, certamente de ovos ou de laranja, que se eleva de um prato branco de porcelana e é rematado no topo por uma cereja vermelha. Se pensarmos na evolução da nossa alimentação, diária ou dos dias de festas, apercebemo-nos que algum do receituário caiu em desuso ou tornou-se residual no mundo das cozinhas de autor, com carácter minimalista. Penso que foi o caso dos pudins. Recordo que estes eram um doce com que frequentemente se terminavam as refeições em dias de festa ou quando havia visitas. Levavam sempre um número elevado de ovos e algumas vezes precisavam de ser cozinhados em banho-maria. A preparação também incluia com frequência uma fase de caramelização da forma da qual resultavam odores inebriantes, que anunciavam desde logo os prazeres que se aproximavam. Assim, resolvi olhar para os pudins que a minha mãe tem no seu livro - Portugal em doces e salgados, aos quais chega mesmo a dedicar um capítulo, e escolhi um deles - o "pudim de gemas gelado".

A receita original refere como ingredientes: 300 g de açúcar, 14 gemas de ovos e 1 colher de sopa de Vinho do Porto. Ao açúcar juntava-se um pouco de água e era levado ao lume até atingir ponto de espadana. Depois retirava-se e deixava-se arrefecer. Juntava-se então as gemas bem batidas e o Vinho do Porto. Ainda era afirmado que a mistura se deitava numa forma de pudim, bem untada de manteiga e depois ia a cozer no forno em banho-maria. Estando pronto, desenformava-se e deixava-se arrefecer. Enfeitava-se com chantilly e cerejas cristalizadas ou de calda. Levava-se à geladeira para arrefecer antes de servir.


Como não posso ingerir estas quantidades "astronómicas" de açúcar e de gemas resolvi fazer uns mini pudins, que também decorei com uma cereja, tal como era sugerido no meu jogo. Fiz apenas 1/3 da receita inicial, porém toda a preparação e os aromas a ela associados remeteram-me para o passado, não numa perspectiva de saudosismo, mas mais de reencontro com raízes um pouco esquecidas.

3 comentários:

Babette disse...

Que projecto curioso!Tem tanto de íntimo como de "legado", para quem visita!
Babette

Fa disse...

Obrigada, Babette. è na realidade um projecto muito especial para mim.

Tuquinha disse...

quanto mais leio mais maravilhada me sinto...continue é fabuloso
beijos