domingo, 31 de janeiro de 2010

O Pantagruel - um ajudante que esteve sempre presente


Antes de ir para Angola, em 1954, o meu pai ofereceu à minha mãe um livro de cozinha - o Pantagruel, da autoria de Bertha Rosa Limpo, que ainda hoje continua a ter novas edições revistas e adaptadas a outra época. Um dos aspectos em que as alterações foram profundas foi no prefácio. Na data desta edição, que infelizmente não consta do livro, mas que imagino poder situar-se entre 1940 e 1954,  a autora referia a determinada altura o seguinte: "Julgo ainda que o meu livro lhes proporcionará alguns momentos de alegria, pois a boa cozinha concorre para existir o bom humor na família. Os homens ficam pelo «beicinho» se, depois de um dia de intenso trabalho, as suas mulheres lhes fizerem servir um jantar apetitoso e bem apresentado. Não se esqueçam que a apresentação desempenha um papel importantissimo. Não basta saber grelhar uma boa carne, assar um bom peixe ou fazer um bolo muito fôfo. É indispensável saber enfeitar um peixe, colocar uma carne na travessa e quais os acompanhamentos que lhes são dados. É imprecíndivel saber armar uma maioneses e tornar os bolos apetecíveis. É preciso gostar antes de comer, para depois saborear com admiração ..."(p. xiii). Curiosamente a autora passa grande parte do prefácio a justificar-se por estar a escrever um livro de cozinha, quando na verdade a sua profissão era cantora lírica. Faz mesmo apelo à figura de um catedrático italiano, que também teria publicado um livro de cozinha, com grande sucesso, nesta mesma altura, para se "desculpar" por estar a escrever sobre este assunto. Porém, é o papel da mulher dona de casa, dedicada quase em exclusivo a fornecer o alimento e o bem estar ao marido e aos filhos que ressalta deste prefácio. Sem saber de toda esta história o meu marido também me ofereceu um Pantagruel, mas desta vez com um prefácio muito distinto deste...

Esta edição possui um texto de Ramada  Curto igualmente interessante, recordando François Rabelais, autor renascentista ligado à criação das figuras de Pantagruel e Gargantua o qual também era "médico" e tratava deste modo os seus doentes: "Alimentava-os de apetitosas viandas, fazia-os beber vinhos capitosos e depois punha-os a destilar em estufas sobreaquecidas. Enquanto eles suavam, Rabelais fazia-os rir, porque «o rir é próprio do homem», contando-lhes «mitologias pantagruélicas» e «crónicas gargantuinas». Grande médico este e saborosa terapêutica! Efectivamente, comer bem, beber bem e rir em francas gargalhadas é o que há de melhor para a saúde e para os humores. O ditado latino «alvus plena non est mens sana», que é como quem diz «estômago cheio, cabeça ôca», era, para Rabelais, uma deplorável tolice. Por isso os seus heróis, o gigante Gargantua e seu filho Pantagruel, gigante ou homem de estatura normal, conforme apetecia ao autor apresentá-lo, devoravam rebanhos, emboracavam tonéis e realizam proezas de forças proporcionais ao que ingeriam. O que não os impedia de pensarem com acêrto» (p. xvi). Desta vez somos remetidos para o excesso, mas também para o prazer associado ao acto de comer.

Este grosso volume do Pantagruel, com 946 páginas nesta edição, acompanhou sempre a minha mãe enquanto esteve em Angola e foi um ajudante precioso, com o qual ela confessa ter aprendido bastante. O livro chegou mesmo a ficar num estado deplorável de tão manuseado que foi. Há alguns anos atrás o meu pai deu uma nova "cara" ao livro, fazendo-lhe uma encadernação luxuosa, a vermelho e dourado, como ele bem merecia pelos serviços prestados à família.

Associado ao Pantagruel só poderia escolher uma receita que de igual modo também tivesse acompanhado sempre a nossa estadia em Angola. É um doce muito singelo - aletria doce, com origem na gastronomia da região de Aveiro, onde é feito para presentear familiares e amigos na altura de batizados ou casamentos. A minha mãe, algarvia de gema, acabou por aderir à aletria depois de casada. Por isso, foi sempre um doce muito comum nos nossos pantagruélicos lanches. A fotografia que associo a esta entrada é a de uma pequena travessa de aletria, preparada hoje pela minha mãe.


Para a sua realização necessitamos de: 250g de aletria, 50g de manteiga, 4 gemas de ovos, 1 l de leite, 300g de açúcar, 1 casca de limão, canela em pau e em pó, sal q.b..Leva-se ao fogo o leite com o pau de canela, uma casquinha de limão, a manteiga e uma pitada de sal. Logo que comece a ferver junta-se a aletria que deve ser partida para ficar mais solta. Mexe-se com um garfo de vez em quando. Logo que esteja cozida junta-se-lhe o açúcar, mexe-se bem e deixa-se ferver mais 5 minutos. À parte, batem-se as gemas de ovos que se adicionam à aletria, mexendo sempre.Volta novamente ao fogo para cozer as gemas, mas deve ter-se o cuidado de não se deixar ferver. Retira-se do fogo e está pronta. Tira-se o pau de canela e a casca de limão, e, deita-se numa travessa ou em pratinhos. Deixa-se arrefecer e enfeita-se com canela, formando desenhos.

4 comentários:

Babette disse...

Esta semana também vou apresentar a receita da aletria da minha mãe, que de há uns anos para cá é a eleita para fazer de (meu) bolo de aniversário!... sopro vela e tudo!

Tuquinha disse...

delicioso aspecto...adoro aletria
beijinhos

VENDING disse...

Também apresentarei uma receita de "Aletria". Gostei muito da descrição que fez da sua edição do Pantagruel, porque quando a minha esposa era minha namorada e tinha 17 anos eu ofereci-lhe a 17ª. Edição do Pantagruel.
Tenho 62 anos, quase todos dedicados a alimentação humana. Gastromia Portuguesa especialmente.

Eugénia Tabosa disse...

Adorei e fiquei emocionada.
Imagine que o "meu" Pantagruel foi-me dado pelo meu então ainda noivo, em 1953...
Foi por onde aprendi a cozinhar...