domingo, 31 de janeiro de 2010

De Luanda para o Lobito


Uma das peças mais importantes do meu espólio arqueológico são as ementas das refeições que eram servidas a bordo dos paquetes que faziam o trajecto entre Luanda/Lobito e Lisboa. Nesta caso, tratam-se de imagens das ementas da última viagem, realizada no "Infante Dom Henrique" em Novembro de 1974. Impressas para cada um dos dias e para cada uma das refeições principais, almoço e jantar, apresentavam variações na respectiva organização. Por exemplo, ao almoço eram oferecidos os seguintes itens pela ordem que se segue: acepipes, bufete frio, sopas, peixe, farináceos, ovo, entrada, grelha, bifes, saladas, molhos, queijos, sorvete, frutas e dietas. Por sua vez cada um destes itens incluia várias propostas à escolha. Paralelamente a esta ementa, que parece pantagruélica, na página ao lado era referido como sugestões do chefe para o dia 11 de Novembro de 1974: "peixe cozido com legumes e costeletas de porco grelhadas com limão". Por sua vez, ao jantar a ementa tinha uma composição distinta: sopas, peixe, legumes, entrada, molhos, saladas, doce, frutas e dieta. À semelhança do almoço, no mesmo dia ao jantar, o chefe sugeria: "robalo grelhado com molho de manteiga" e "escalopes de vitela à Holstein". Em todas as ementas era ainda referido que "Se V. Exa. desejar algum prato especial queira dirigir-se ao Maitre d'Hotel com antecedência".


Na verdade o impacto da extensa oferta acabava reduzida, a maior parte das vezes, a pratos bastante singelos. Porém, nas memórias daqueles que fizeram estas viagens permanece a ideia de lautas refeições, servidas com grande requinte e ostentação. Na ementa do dia que escolhi para esta entrada constava ao jantar uma "torta italiana" da qual como é óbvio já não me recordo. Pelo contrário lembro-me bem de uma torta de côco que a minha mãe fazia com muita frequência e que era deliciosa.


Como ingredientes são necessários: 400 g de açúcar, 100 g de manteiga, 125 g de côco ralado e 6 ovos. Batem-se bem os ovos com o açúcar. Junta-se depois a manteiga derretida e por último o côco. Vai ao forno num tabuleiro untado, caso este não seja revestido de teflon, e forrado com papel vegetal de cozinha. Deve estar no forno (200ºC) cerca de 15 a 20 minutos. Depois de cozido, vira-se sobre uma folha de papel vegetal de cozinha polvilhada com côco e enrola-se. A torta dá a ideia de ser recheada de ovos moles, mas na verdade é apenas a massa que num dos lados fica com uma consistência mais apudinada, por isso não a devemos deixar secar muito no forno.

Há um último mistério  a esclarecer. No caso desta viagem o "Infante Dom Henrique" parou primeiro em Luanda, fazendo depois escala no Lobito (mais a sul) de onde partiu directo para Lisboa, o que se traduziu numa viagem de cerca de nove dias sem escala. Poderá parecer monótomo para quem nunca passou pela experiência, mas muito pelo contrário, eram dias totalmente preenchidos de actividades. Às vezes com alguns enjoos, mas nada que um comprimido não resolvesse. De tal modo estes dias eram agradáveis, que o sentimento dominante, quando se chegava ao destino, era o de nostalgia por ter terminado um período de descanso e de despreocupação e ser necessário voltar a enfrentar os problemas do quotidiano. Este é um dos temas a que regressarei em novas entradas.

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