sábado, 16 de janeiro de 2010

Cestos, quintandeiras e camarões



Quando penso nos camarões que se compravam em Luanda, associo-os sempre à imagem de um recipiente de verga, de lata ou mesmo de plástico, em que estes pequenos crustáceos se empilhavam numa pirâmide, não muito acentuada. Ligeiramente enterrada, para não cair, observa-se uma pequena lata, que originalmente servia de embalagem a uma marca de margarida ainda bastante conhecida e que agora, já um pouco ferrugenta e abaulada, serve de medida à quintandeira que faz venda dos camarões. Como é evidente estamos a falar de animais recém apanhados, que os fregueses irão cozer em grandes tachos, onde colocaram água com bastante sal, assim como uma quantidade razoável de gindungos. Uma fervura de 5 minutos irá levar os camarões ao seu ponto certo, mas era importante não esquecer de tapar o tacho. Caso contrário teríamos direito a alguns ataques de tosse, devido ao vapor carregado de pequenas partículas provenientes do gindungo. Depois de cozidos, e, de terem arrefecido, eram colocados na geladeira. Porque camarão quente não tinha graça!


O que pensariam estas quintandeiras de outros tempos ao verem as caixas de camarão congelado que hoje compramos nos supermercados. Camarões todos do mesmo tamanho, dispostos em filas precisas, tal como os soldados chineses nas paradas militares. Embalados em caixas de cartão de má qualidade, e, com um desenho gráfico, a maior parte, das vezes kitsch. Provavelmente os seus autores terão consciência dessa limitação, por isso colocam-lhes uma “janela” de celofane de forma a permitir visualizar os próprios seres. Deste modo dispõem lado a lado o referente (camarão) e o significado (imagem do camarão), numa espécie de convite à realização de um exercício de semiótica visual. Estas minhas divagações introdutórias estão a conduzir-me invariavelmente aos problemas da representação dos objectos. Embora não seja esse o objectivo inicial, na verdade é que ao estar a estabelecer associações entre objectos, aromas e sabores, o fio condutor acaba por ser uma relação que para mim é portadora de significado.

Desta vez, toda esta introdução e as fotografias da alguns cestos desta época que ainda possuo surge para fazer referência a uma receita que a minha mãe fazia com muita frequência, durante o tempo que vivemos em Luanda - açorda de camarão no forno. Era um prato confeccionado, por norma, ao fim-de-semana, pois os camarões não eram muito baratos. Como todas as receitas familiares, esta também teve a sua época e depois acabou por ser abandonada, devido à dificuldade que existe em encontrar camarão fresco e de boa qualidade. Mas mesmo correndo o risco de não ter acesso aos ingredientes adequados resolvi arriscar!

A receita original, retirada do livro Portugal em Doces e Salgados, refere os seguinte s ingredientes: camarão 1 kg, tomates 1/2 kg, azeite 1 dl, cebola 1 média, ovos q.b., pão q.b., sal. Faz-se um refogado com o azeite e a cebola bem picada. Depois de a cebola estar bem estufada junta-se o tomate limpo de peles e sementes. Deixa-se cozinhar o tomate e em seguida junta-se ao molho as cabeças e as caudas dos camarões e alguma água da cozedura dos mesmos. Ferve 15 minutos e decorrido esse tempo, passa-se por um passador, de maneira que as cabeças e as caudas dos camarões fiquem bem espremidas, isto é, bem secas. Adiciona-se a água que se julgar necessária para a açorda (água de cozer o camarão), rectifica-se o sal e passa-se por uma peneira para que não vá qualquer impureza. Deita-se dentro metade dos camarões cozidos e sem casca. prepara-se um pirex de ir à mesa e ao forno com fatias de pão finas e pequenas e deita-se dentro o caldo que se preparou, o suficiente para ensopar o pão e pouco mais. Por cima do pão já ensopado no caldo, espalha-se o resto dos camarões, e com o auxílio de uma colher de sopa fazem-se cavidades no pão e nelas se deita um ovo em cada. Os ovos devem ser previamente abertos, um por um, e depois deitados na açorda. Devem deitar-se tantos ovos quantas forem as pessoas. Vai ao forno apenas o tempo suficiente para cozer os ovos (cerca de 8 minutos).




Apesar das dificuldades em encontrar camarão cru sem estar congelado a açorda ficou muito gostosa. Porém, recordo que era muito mais colorida, com um vermelho intenso, devido por certo á qualidade do tomate. Para disfarçar a cor, que não foi a esperada, ainda coloquei um pouco de queijo parmesão por cima, mas não era necessário. Resta apenas referir que é preciso ter algum cuidado com a quantidade de sal usado para cozer o camarão uma vez que a respectiva água vai ser depois utilizada na confecção da açorda. Deve ser servida logo após sair do forno.

2 comentários:

Tuquinha disse...

que maravilha essa açorda....
como eu gostaria de conhcer àfrica...o meu marido está a trabalhar há 3 anos no Huambo e apaixonou-se ....por tudo.
talvez um dia quem sabe ainda lá vá?.....
beijos e mais uma vez obrigada pelo magnifíco blogue

Fa disse...

A África a que aqui me refiro neste blog é a dos anos sessenta e setenta, mas certamente que Angola continuará a ser um bonito país para visitar e para aproveitar a comer uma excelente muamba.