terça-feira, 6 de abril de 2010

Açúcareiros, doçuras e caramelo


Estes três açúcareiros são três peças genuínas do meu espólio africano, que para além desses aspectos apenas têm em comum o facto de terem desempenhado uma função idêntica, e, de serem serem os três igualmente kiths, segundo os nosos actuais padrões. Os próprios materiais de que são feitos também são distintos, vão desde a porcelana chinesa à cerâmica/porcelana mais grosseira e ao pirex. O que me atrai hoje nestes objectos é que eles estão em vias de instição. Primeiro porque se começaram a usar aquelas pequeninas pastilhas de adoçante, que são transportadas nas embalagens dos fabricantes. Depois descobriu-se que esses produtos não eram muito bons para a saúde, o aspartane nomeadamente. Para além disso, a meu ver colocar açúcar no chá é um sacrilégio. No café não sei se será, porque não costumo beber!

Mas seja qual for o material, olhando para um açucareiro só podemos ter pensamentos doces, que nos conduzem por sua vez a bolos de caramelo, onde o açúcar foi usado sem qualquer complexo ou fundamentalismo. É o caso deste bolo delícia de caramelo que a minha mãe fazia há muitos anos atrás. Depois ficou esquecido, mas esta Páscoa foi recuperado para gáudio dos gulosos.

Para o bolo utilizei: 1 2/3 chávenas de açúcar; 2 chávenas de farinha; 1 chávena de margarina; 3 ovos; 2 dl de leite; 4 colheres de chá de fermento em pó. Comecei por bater uma chávena de açucar com a margarina. Como utilizei a Becel para cozinha não foi necessário derretê-la previamente. Juntei as gemas uma a uma. À parte, queimei os 2/3 de chávena de açúcar, até ficar em caramelo. Quando assim estiver, junta-se com cuidado o leite que deve estar quente. Mexe-se muito bem, de modo que todo o caramelo fique dissolvido no leite. Em seguida, junta-se ao preparado anterior, mexe-se bem e adiciona-se a farinha com o fermento e, por último, as claras em castelo. Vai ao forno em forma de buraco ao meio, untada de margarina e polvilhada de farinha.

Quando sai do forno coloca-se em cima de uma grelha de bolos para arrefecer. Depois corta-se ao meio e recheia-se. Para esse efeito faz-se um caramelo com 300 g de açúcar a que se junta depois 1/2 chávena de leite quente (com cuidado). Vai-se mexendo até que todo o caramelo se dissolva. Adiciona-se então 3 colheres de sobremesa de manteiga e uma chávena grande miolo de nozes, partido aos bocadinhos. Recheia-se e cobre-se o bolo com este creme, colocando por cima metades de nozes inteiras que também se cobrem de caramelo.

sexta-feira, 2 de abril de 2010

O fascínio pelo oriente e os bolos de arroz

Em Angola, existia um certo fascínio pelas loiças e móveis orientais. Ainda hoje mantemos algumas peças, das quais já não gostamos muito, mas que há uma décadas atrás foram suficientemente apreciadas para serem compradas. No caso destes pratos nem sei como surgiram. Aliás, até têm sinais de terem tido bastante uso. Seria certamente a atracção pelo exotismo, mas principalmente o facto de não existirem muitas opções em termos de escolha. Isso não significa que alguns destes objectos não fossem esteticamente interessantes. Por exemplo, sempre achei as porcelanas "bago de arroz" muitos bonitas, em particular, as mais simples, sem dourados.

E a propósito deste assunto lembrei-me que o meu pai em jovem gostava muito de bolos de arroz. Procurei no livro e nos cadernos da minha mãe uma receita para estes bolos. Porém, não encontrei nada. Mas lembro-me que ela comprava pacotes de farinha de arroz para utilizar em bolos. Por isso, resolvi alargar a minha pesquisa e tentar encontrar, em vários livros e sites, uma receita para fazer os referidos bolos. Fiquei admirada quando encontrei algumas que nem farinha de arroz levavam e outras em que existia uma mistura entre farinha de arroz e de trigo. Só num livro do século XVIII é que achei uma receita feita unicamente com farinha de arroz. Claro que tive de fazer uns cálculos, porque as unidades de medida eram distintas das actuais.

Assim, utilizei nos meus bolos de arroz: 60 g de farinha de arroz, 220 g de açúcar fino, 4 gemas, 7 claras e o vidrado da casca de 1/2 limão. De acordo com o livro consultado, com excepção das claras, todos os outros ingredientes deveriam ser batidos, com duas colheres (?), durante 15 minutos e só depois misturadas as claras em castelo. Esta massa seria depois colocada em caixas de papel, untadas de manteiga por dentro e cozidas em forno muito brando. Depois de cozidas deveriam ser tiradas das caixas e cobertas com um glace feito com 1 clara de ovo, açúcar fino e algumas gotas de sumo de limão. Regressariam de novo ao forno para secar o glace.

Como é evidente a minha versão foi mais despachada! De qualquer modo forrei as formas com papel vegetal antiaderente em que escrevi com um lápis (na parte exterior) - bolos de arroz. Também coloquei uma tira de papel vegetal atravessada nas formas, mas os conseguir retirar mais facilmente. Não se pode dizer que tenham ficado muito bonitos, mas ficaram bons! Em nada se assemelham aos que se comem nas pastelarias, que acabam por ser uns banais queques. Neste caso, os bolos fazem lembrar um pão-de-ló muito leve. Como me sobrou massa coloquei-a em forminhas de silicone pequenas, mas desconfiada de que o resultado final poderia não ser bom. Contudo, fiquei agradavelmente surpreendida.

domingo, 28 de março de 2010

Vista Alegre rima com arroz doce


As porcelanas da Vista Alegre sempre foram uma referência de qualidade para a minha família paterna, consideradas mesmo como as únicas a serem dignas poderem ser incluídas na categoria das porcelanas. A colecção de peças antigas desta fábrica é quase uma obrigação familiar. Eu própria já assimilei o hábito, às vezes, deplorável, de inverter pratos e chávenas para verificar qual o símbolo (carimbo), porque como devem saber este evoluiu ao longo do tempo e o maior ou menor valor de uma peça da Vista Alegre depende da sua antiguidade, isto é, do tipo de carimbo que encontramos no reverso.

Acredito que os meus pais, quando foram para Angola na década de cinquenta, não levaram peças da Vista Alegre na sua bagagem. Aliás, esta deveria ser muita reduzida, uma vez que era expectável terem à sua espera uma casa mobilada e apetrechada com loiças e roupas. Claro que a realidade não foi assim tão idílica. A primeira casa em que viveram tinha o tecto a cair, das paredes saía salalé e só quando a minha mãe, por acso, derramou um copo de água no chão é que se apercebeu que este não era de terra batida como imaginava, mas que existia uma camada de cimento por baixo. Isto pode parecer uma visão pouco agradável, mas eles ainda hoje falam desse local com muita saudade. Porque ao fim de algum tempo foi construída uma casa nova e tiveram oportunidade de desenharem todos os móveis e de a decorarem ao seu gosto. Numa outra entrada falarei um pouco mais sobre este local - o Cariango.

Mas regressos às porcelanas da Vista Alegre. Estas também chegavam a Angola na forma de serviços que apetrechavam as casas dos funcionários públicos, mas com modelos que às vezes não se encontravam em Portugal. Claro que quando penso na Vista Alegre não posso deixar de me recordar do arroz doce. A minha mãe toda a vida teceu grandes elogios aos arroz doce feito pela minha avó paterna, que realmente era muito bom! O da minha mãe também é bom, mas fica com consistência e sabor diferentes. A receita que eu hoje recupero é a do arroz doce à moda de Ílhavo, cidade onde nos seus arredores se localiza a fábrica da Vista Alegre.

É tradição em Ílhavo oferecer travessas de arroz doce aos familiares e amigos na altura de acontecimentos familiares importantes, como batizados, casamentos, etc. Por isso, quiz repetir esta tradição e fazer também uma travessa de arroz doce, decorada com canela como a minha mãe me ensinou a fazer. Esta receita de arroz doce difere de outras, mais vulgares no nosso país, por não utilizar leite na sua preparação.

Para preparar o arroz doce servi-me de 250 g de arroz calorino (Bom Sucesso - Companhia das Lezírias), 250 g de açúcar, 3 gemas, casca de limão, 1 colher de sopa de manteiga, sal e canela. Levei ao lume a água (3 vezes o volume do arroz), adicionado-lhe duas cascas de limão e a manteiga, assim como uma pitada de sal. Como começou a ferver juntei o arroz. Logo que voltou a retomar fervurar, reduzi o lume, mexendo de vez enquando até o arroz cozer. Nessa altura adicionei o açúcar e deixei ferver durante mais 5 minutos. Depois incorporei as gemas, ligeiramente batidas, que à parte já tinha misturado com um pouco de arroz quente. Deixei estar ao lume mais 5 minutos, mas sem perbitir que fervesse. No finl, coloquei numa travessa que depois enfeitei com canela. para esse efeito cortei um papel vegetal de forma a obter um desenho, que coloquei por cima do arroz. De seguida polvilhei com canela que tinha colocado dentro de um passador, para deste modo obter um efeito homogéneo.

Arte no jardim



sexta-feira, 26 de março de 2010

Espirais, formigas e argolas


Este ferro de fazer filhoses, que era da minha mãe, está associado a um dos meus maiores insucessos na cozinha. Já fiz várias tentativas, mas o grau de desastre é tal que acabam sempre no caixote do lixo. Segundo as minhas tias o efeito de um prato de filhoses empilhadas, feitas com este ferro, era particularmente bonito. Imagino que sim! Mas por alguma razão obscura, que só um psicanalista conseguiria descobrir, associei este objecto à lembrança de uns biscoitos de azeite, em cuja elaboração eu participava, quando vivíamos no Ébo.

Esta vila, à qual já fiz referência, está localizada numa região de grande beleza paisagística, mas à época era um local com uma população muito reduzida e até mesmo isolado, em termos de acesso a um conjunto de serviços de primeira necessidade. A casa onde vivíamos era enorme, mas há muito que os seus dias de apogeu tinham passado. Construída em adobe, na encosta de uma elevação, tinha à sua frente um jardim que nós designávamos pelos "jardins suspensos da Babilónia". A sua conservação era absolutamente insustentável, por isso as plantas cresciam de uma forma selvagem. Também tinha um pomar, com muitas macieiras, as quais produziam uns frutos bastante ácidos, provavelmente também devido à falta de tratamento.

Em determinadas alturas do ano, devido ao tipo de construção, assistíamos ao espectáculo surpreendente de ver sair das paredes umas salalés bastante bem nutridas, que eram comidas como grande pitéu. Uma amiga nossa que as provou foi capaz de confirmar que o seu paladar lembrava o do marisco. Porém, onde eu pretendo chegar é às formigas, designadas por kissonde. Estas formigas invadiam as casas, aos milhares, enquanto dormíamos. Normalmente era quando se punha um pé no chão que se começavam a sentir as ferroadas, e, as ditas formigas a subirem pelas pernas. Elas entravam pelas frestas das portas e infiltravam-se em todo o lado. A sua picada era bastante forte. Quando ocorriam estas situações, e no Ébo devido ao local onde a casa se encontrava aconteceu várias vezes, era necessário acordar toda a gente e começar a agir de forma rápida. Recordo que se deitava fogo a papéis de jornal e que depois se lançavam baldes de água com creolina. Era um desassossego enquanto a invasão não estava controlada e as formigas dizimadas. Claro que existiam formas de prevenção. A mais comum era colocar cinza à volta das casas. Contavam-se imensas estórias sobre a capacidade de ataque destas formigas e como podiam matar animais já de grande porte. A verdade é que uma invasão de kissonde metia respeito, mesmo não tendo visto o filme a Marabunta.

Era exactamente na cozinha da casa do Ébo, que foi várias vezes invadida pelo kissonde, que eu ajudava a fazer as ditas argolinhas fritas. Para a sua preparação é necessário utilizar os seguintes ingredientes: 4 colheres de sopa de açúcar, 2 colheres de sopa de azeite, 1 colher de sopa de manteiga, 1 colher de sopa rasa de fermento, 2 ovos, 2 colheres de sopa de leite, 2 colheres de sopa de aguardente e farinha q.b.. Misturava-se tudo e ia-se deitando a farinha peneirada com o fermento até se obter uma massa em boa consitência para tender. Estendia-se a massa com um rolo numa tábua enfarinhada e depois cortava-se, com a ajuda de um copo e de, por exemplo, de um descaroçador de maçãs, de forma a obterem-se argolas que se fritavam em óleo quente. A massa deve ficar com uma espessura inferior a 0.5 cm, mas também não pode ficar muito fina, caso contrário é difícil de a colocar na frigideira. No final, ainda quentes, passam-se por açúcar com canela. São excelentes!

domingo, 21 de março de 2010

quinta-feira, 18 de março de 2010

Óculos de casca de laranja e respectiva tarte de laranja

Penso que todos nós nos conseguimos recordar de algumas habilidades que os nossos pais faziam para nos entreterem ou para, com objectivos mais pragmáticos, nos convencerem a deglutir algum alimento. Recordo-me que quando vivia em Angola o meu pai me fazia uns óculos com casca de laranja que eu adorava. Como todas as crianças também achava que usar óculos era um sinal de maturidade, que ao mesmo tempo impunha respeito e admiração aos que não os possuíam.

Há pouco tempo lembrei-me de pedir ao meu pai que me fizesse uns óculos de casca de laranja, mas pensei que eventualmente já não se lembraria de como eram feitos. Eu própria confesso que já não me lembrava! Porém, foi com espanto e com orgulho que o vi pegar numa faca de serrilha pequena e começar a cortar a laranja sem hesitações. Depois disso ficámos tão encantados com esse regresso ao passado, que nos entretivemos a tirar fotografias um ao outro com os óculos colocados. No final, fiquei toda lambuzada de laranja e perfumada com o aroma deste citrino, mas diverti-mo-nos imenso. Claro que como já se aperceberam esta é uma entrada dedicada ao meu pai e às suas capacidades artísticas, que vão muita para além da construção de óculos de casca de laranja.

E, como já devem imaginar, esta estória conduziu-me a uma receita com laranja, mais precisamente a uma tarte de laranja. Para a massa utilizei a minha mistura habitual (250 g de farinha, 125 g de margarina, 5 colheres de sopa de água e uma pitada de sal refinado), porém, a minha mãe, que é mais gulosa do que eu, aconselha a seguinte receita: 200 g de farinha, 100 g de margarina, 1 ovo, 2 colheres de sopa de açúcar e uma pitada de sal refinado. Para o recheio necessitei de 250 g de açúcar, 5 ovos, 1 colher de sopa de manteiga e o sumo de duas laranjas. Misturei muito bem estes ingredientes e levei a lume brando até engrossar. Deitei o recheio numa tarteira previamente preparada (forrada de massa e já meio cozida) e levei ao forno até o creme ficar levemente tostado por cima.

terça-feira, 16 de março de 2010

Do universo feminino dos brinquedos aos bolos


Por causa deste blogue tenho no meu escritório uma série de caixas com brinquedos meus, que trouxe da cave dos meus pais. Claro que já muitos desapareceram, mas mesmo assim consegui conservar um espólio razoável. O conteúdo das referidas caixas remete, sem sombra de dúvidas, para um universo feminino muito associado às designadas actividades domésticas: cozinhar, coser, limpar a casa, etc.. Já a nível de livros a diferença entre o universo feminino e o masculino não se encontra tão marcada.
Pode colocar-se a questão, e certamente muitos já o fizeram, do modo como estes objectos influenciam a formação de uma criança e as suas opções futuras. No meu caso tive várias aspirações na vida, das mais variadas! Comecei por querer ser cabeleireira, mas posso afirmar que nunca tive brinquedos relacionados com essa profissão. O estilismo, a medicina e a arquitectura também foram opções. Mas excepto as bonecas de papel não posso afirmar que a influência tivesse sido de algum brinquedo. A opção final talvez tivesse sido influenciada por objectos, que em norma não os consideramos como podendo ter uma função lúdica. Estou a recordar-me dos fósseis e das rochas que o meu pai costumava trazer para casa e que sempre me fascinaram.
O gosto pela cozinha recebi-o da minha mãe e de todo um trajecto de vida em que a alimentação esteve sempre associada a uma vertente de convívio muito valorizada. Recordo-me que não achava muita graça em fazer cozinhados em miniatura. Aliás, estes objectos continuam novos, pela simples razão que nunca me servi deles. Lembro-me que ainda criança a minha mãe me deixava fazer bolos e biscoitos. Comecei como ajudante e rapidamente ascendi na carreira de "pasteleira" amadora. Com frequência confiavam-me a tarefa de fazer um bolo para um lanche. Normalmente bolos simples, que não envolvessem grandes riscos. Isto é, não estava autorizada a fazer nada com pontos de açúcar, nem a utilizar a técnica do banho-maria, mas praticamente tudo o resto me era permitido. Entre os bolos que fazia encontrava-se o bolo prata, que era usado para aproveitamento de claras.
Na preparação deste bolo é necessário utilizar: 250 g de açúcar, 250 g de farinha, 8 claras de ovos, 2 colheres de chá de fermento em pó, 100 g de margarina e raspa e sumo de um limão. Juntam-se ao açúcar a margarina previamente derretida, assim como o sumo e a raspa do limão. Bate-se tudo muito bem. Em seguida, junta-se a farinha com o fermento, e, por último, adicionam-se as claras batidas em castelo. Leva-se ao forno numa forma de buraco, untada de margarina e polvilhada de farinha. Eu resolvi arriscar e fiz o bolo numa forma de silicone de fundo plano e a experiência correu bem.

sábado, 13 de março de 2010

Sabores em falta

Todos os que já viveram no estrangeiro provavelmente passaram pela experiência de começarem a gostar de algum prato, que antes não apreciavam. No meu caso, foi necessário viver dois anos no Brasil, mais precisamente no Rio Grande do Sul, para começar a apreciar açorda de coentros. Acontecia a mesma coisa com quem vivia em Angola. Lembro-me que a minha mãe de vez enquando era assaltada pelo desejo de comer determinadas iguarias. Normalmente doces. Recordo-me, de que quando vivíamos em Novo Redondo (Sumbe), a minha mãe ter feito Dom Rodrigos. As folhas prateadas de diversas cores eram enviadas de Portugal por uma tia. Também me lembro do meu pai ter conseguido que lhe enviassem folhas de hóstia com os formatos que se usam nos ovos moles de Aveiro. Na altura, tal como hoje era proibido vender estes moldes, mas devido a conhecimentos familiares as ditas folhas de hóstia, extremamente frágeis como devem imaginar, lá conseguiram chegar a Novo Redondo. Como é evidente foi um enorme sucesso quando a minha mãe serviu os ovos moles de Aveiro num almoço. Porém, a estória mais engraçada teve como personagens centrais uns caracóis.

Os meus pais tinham uns amigos que viviam, perto de Novo Redondo, a quem enviaram de Lisboa uma caixa de caracóis. Creio que a encomenda foi transportada por barco, isto é, os caracóis passaram pelo menos por 10 dias de viagens, mais o trajecto de Luanda até Novo Redondo. Essa caixa foi parar lá a casa, porque os referidos amigos só esporadicamente iam à capital do distrito. A minha mãe, como algarvia, é uma entendida nesta matéria de tratar e preparar caracóis. Lembro-me que parte dos caracóis não tinham resistido à viagem, mas os sobreviventes foram principescamente alimentados com alface e farinha. Foram colocados num novo caixote com uma rede em cima, que permitia visualizá-los no interior. Recordo de ter passado dias a olhar para aqueles pequenos animais, controlando as suas tentativas de fuga. Por fim, acabaram cozinhados e foram servidos por certo acompanhados com umas cervejas Cuca, num lanche servido no terraço.

Todas estas recordações surgiram porque a minha mãe esta semana me telefonou, dizendo que tinha saudades de comer pastéis de Londres. Resolvi, por isso, satisfazer este desejo, associando-o à imagem de um serviço de chá (brinquedo), que me ofereceram em criança. Quantos aos pastéis não sei se ficaram exactamente iguais aos originais. Ainda estou à espera do veredito!
Para preparar estes pequenos bolos são necessários os seguintes ingredientes: 300 g de açúcar, 100 g de miolo de amêndoa sem pele e passado pela máquina, 50 g de manteiga, 10 gemas de ovos e 2 claras. Coloca-se o açúcar ao lume com 1/2 litro de água e deixa-se ferver, até atingir um ponto forte. Tira-se o açúcar para fora e mexe-se durante algum tempo, para esfriar um pouco. Adiciona-se em seguida a manteiga e a amêndoa, misturando muito bem. Por último, deitam-se os ovos e as claras previamente misturadas, mas não batidas. Leva-se ao forno, em temperatura moderada, em formas pequenas e untadas de manteiga.

As formas da natureza

Herdei do meu pai o gosto pela observação das formas da natureza e pela sua valorização em termos estéticos. No caso desta fotografia, trata-se do resto de uma árvore que foi atingida por um relâmpago e que, depois, com o passar dos anos, foi sofrendo desgaste devido à humidade e aos seres vivos. Ainda temos inúmeras peças deste tipo que foram recolhidas em diversas regiões de Angola. Este tronco, por exemplo, veio do Cubal, uma cidade localizada entre Benguela e o Huambo.

No período das chuvas, quase invariavelmente, depois do almoço, o céu começava a escurecer, ficando de um cinzento chumbo carregado. Havia uma serra que podiamos observar da nossa casa que deixava de ser visível nesses momentos. Depois caia um fortissimo aguaceiro, acompanhado de relâmpagos e trovões. Por este motivo, todas as casas tinham para-raios. Aliás, no Cubal ocorriam todos os anos acidentes graves. As trovoadas eram tão estridentes que os copos batiam uns nos outros, dentro dos armários, e o telefone tilintava. Mas estas tempestades tropicais demoravam pouco tempo e a elas seguiam-se fins de tarde muito agradáveis, caracterizados por uma atmosfera com menos humidade. Era nesta altura que os meus pais gostavam de ir dar uma volta por algum local perto. Recordo-me que a savana ficava deslumbrante nas suas diversas tonalidades de verde e com a vida animal na sua máxima pujança. Também tenho presente o aroma - uma mistura de terra molhada e de vegetação em desenvolvimento. Nestes passeios encontravam-se frequentemente árvores que tinham sido atingidas por descargas eléctricas, muitas delas eram autênticas esculturas. Recordo-me do meu pai ter tentado convencer, mas sem grande sucesso, a colocarem uma dessas árvores num dos jardins da cidade.

Confesso que tenho saudades destas tempestades tropicais. Em Lisboa, as trovoadas são sempre muito "tímidas". Talvez por ter nascido, no período das chuvas, sinto estas tempestades como um ritual da natureza que passa da intempérie mais avassaladora para uma fase de acalmia e rejuvenescimento. Porém, em Lisboa, chove dias e dias sem parar, como tem acontecido este Inverno. Ficamos mais com a ideia de que nos vamos diluir em tanta água, do que com qualquer outro tipo de sensação revigorante.

Neste contexto, recordei-me de uns pequenos bolos que a minha mãe fazia - os bolos da tia Boa Hora. Para a sua preparação são necessários os seguintes ingredientes: 250 g de açúcar, 250 g de farinha, 2 colheres de sopa de azeite, 2 ovos, 1 colher de sopa de fermento, 1 colher de sopa de erva-doce moída, 1 colher de sopa de canela, 1 cálice de Vinho do Porto. Juntam-se muito bem todos os ingredientes, tendo o cuidado do último ser o Vinho do Porto. Tendem-se pequenos bolos que se levam ao forno num tabuleiro forrado de papel vegetal antiaderente. Levam cerca de 15 minutos a assar.

sábado, 6 de março de 2010

Coleccionar receitas


Desde muito criança que me lembro dos meus pais fazerem colecções de recortes de jornais e de revistas. Lembro-me que juntavam todos os suplementos infantis dos jornais que recebiam, para que um dia eu os pudesse ler. Também coleccionavam as tirinhas de banda desenhada. Enfim, tudo o que consideravam ter algum interesse. Claro que ao longo dos anos também se foram acumulando milhares de recortes de receitas.

Mas isto faz-me recordar o momento em que chegava o correio, nalgumas das localidades mais isoladas em que vivi. Sim, porque com frequência apenas se recebia correio uma vez por semana. O correio vinha nuns sacos grandes, pintados com uma tira vermelha e verde. Ao abrir-se o saco saiam do seu interior saiam cartas e encomendas, mas também os jornais enrolados e presos com uma cinta. Eram jornais de vários dias, por isso as notícias já estavam completamente ultrapassadas, mas como eram a única fonte informativa eram lidos com um interesse maior do que aquele com que hoje se lê um jornal, sabendo que no dia seguinte teremos acesso a um outro exemplar, que vai actualizar as notícias.

Talvez este tivesse sido o motivo porque os meus pais desenvolveram o hábito de recortar os jornais e de coleccionar pedacinhos de papel que depois acabam como elementos de uma outra estória, ao serem inseridos num agrupamento diferentes daquele para que foram escritos.

A propósito destes cadernos, livros e caixas de recortes que agora ando a revisitar, lembrei-me de um bolo simples, mas que eu gostava muito - o bolo de cerveja. Para a sua preparação são necessários os seguintes ingredientes: 200 g de açúcar, 180 g de farinha, 120 g de margarina, 2 ovos, 1 colher de chá de fermento em pó e 8 colheres de sopa de cerveja. Bati o açúcar com a margarina (Becel para cozinha), até ficar em creme. Juntei as gemas e mexi tudo muito bem. Deitei alternadamente a farinha misturada com o fermento e a cerveja. Por fim, juntei ao creme as claras em castelo firme. Foi ao forno em forma bem untada de margarina e polvilhada de farinha durante cerca de 30 minutos.

segunda-feira, 1 de março de 2010

Caixas de chocolates e de caramelos


As caixas de lata que servem de embalagem a chocolates e caramelos têm tendência a transformarem-se em objectos que perduram no tempo, pelas funções que lhes são atribuídas a posteriori. Seja como caixas de costura ou como uma espécie de "baús" onde se guardam recordações de momentos especiais, que suscitam quase sempre boas recordações.

Algumas das marcas mais populares na época já deixaram de existir e outras perderam o seu prestígio. Recordo-me das caixas dos caramelos e chocolates Mackintosh's. Um clássico que era sempre sinónimo de qualidade. Os bombons vinham embrulhados em papel metalizado de cores berrantes que por sua vez era envolvido por celofane transparente. A abertura de uma destas caixas suscitava sempre olhares gulosos, apesar de já se saber o que iríamos encontrar. Recordo-me de uns caramelos redondos e achatados, embrulhados em papel amarelo, que tinham a particularidade de possuirem uma forte apetência para se grudarem aos dentes. No meu caso, seguia um certo método, esgotava cada uma das categorias até passar para a próxima. Esta táctica só era possível pela invariabilidade que se verificava na constituição do conteúdo destas caixas.

Mas a minha maior paixão eram umas caixas da Elba, salvo erro, com waffers de chocolate, que se designavam por Mil Delícias. Claro que o clima quente obrigava a que os chocolates e caramelos tivessem de ser muito bem embalados para não se estragarem. Talvez por isso as caixas de lata eram comuns, mas foram sempre objecto de luxo, utilizados apenas para presentear em ocasiões especiais.

Quando pensei numa receita para associar às caixas de chocolate lembrei-me logo de uns docinhos de coco que a minha mãe fazia - bolinhos brancos de coco. Como ingredientes utilizei 250 g de açúcar, 250 g de coco ralado e 3 claras de ovo. Juntei muito bem todos os ingredientes e fiz pequenos bolos que deixei secar de um dia para o outro. Depois coloquei-os em caixinhas de papel.

domingo, 28 de fevereiro de 2010

O vestido de noiva


Esta é mais uma das estórias do Bocoio. Um dia uma amiga da minha mãe foi convidada para madrinha de um casamento, tendo a noiva de imediato referido que teria muita dificuldade em conseguir o vestido com que tinha sonhado. Para além de dificuldades económicas também não existia uma modista à altura da tarefa, nem lojas com tecidos adequados para este efeito. A futura madrinha da noiva lembrou-se de desafiar a minha mãe, para as duas, com a ajuda dos moldes da BURDA, fazerem o vestido. Só que não estavam à espera que a noiva estivesse a sonhar com um vestido comprido, com uma cauda longa. Porém, como já se tinham envolvido na situação e a noiva estava irredutível quanto a este aspecto, não tiveram outra solução senão enfrentar o problema.

Recordo-me de termos ido ao Lobito de propósito para comprar o tecido e os restantes adereços que seriam necessários. Depois foram tardes passadas em casa dessa amiga em que eu recordo que para me entreterem davam-me livros e um frasco com cascas de laranja cristalizadas. Infelizmente nunca apreciei muito estas últimas, mas recordo-me dos livros de cromos do filho dessa amiga, mais velho do que eu, e com os quais ficava deslumbrada. Uma outra paixão que tinha era a das bonecas de papel. Estas compravam-se em folhas, com os respectivos vestidos, que depois se recortavam. Sempre adorei estas bonecas, com as quais me realizava enquanto "estilista".

As bonecas de papel da imagem superior são uma das peças que eu mais valorizo no meu "arquivo" de objectos. Foram-me dadas pela minha professora no Bocoio e tinham sido feitas pela filha, que salvo erro estava na altura a estudar Belas Artes, em Portugal. Foram sempre conservadas como um bem precioso e posso dizer que o seu estado não sofreu alteração desde que me foram oferecidas há muitos anos atrás. Todas as roupas e as respectivas bonecas foram desenhadas e coloridas manualmente. Nesta colecção também existia um vestido de noiva, desenhado a lápis, com uma perfeição e um pormenor extraordinários.

Quanto ao trabalho de costura este acabou por chegar ao fim e ainda hoje quando olho para uma fotografia da noiva, tirada comigo, penso que continua a ser um vestido muito elegante e actual. Realizou-se o sonho da enorme cauda. Mas infelizmente os pagens, eu e um amigo, não tinhamos sido avisados de que deveriamos continuar a segurar na cauda mesmo que no momento da entrada na igreja caísse um enorme aguaceiro. Recordo que a nossa actuação não foi brilhante! Achámos que também estávamos muito elegantes e por isso não podíamos molhar as nossas roupas. Assim, resolvemos desatar a correr logo que saímos do carro, deixando a noiva a segurar a enorme cauda.

Para além deste acidente foi um casamento cheio de estórias, que ainda hoje são recordadas com grande diversão pelos seus protagonistas principais. Todas as senhoras tinham feito fatos especiais para o casamento e tinham decidido levar chapéu. Recordo da minha mãe ter feito um chapéu com um formato de cone a partir de um outro de palha que se preparava para deitar fora. Cortou-o, forrou-o com um tecido branco e outro preto transparente, rematando com um pregador roxo e uma pluma. Foi uma surpresa quando entrou na igreja. Mas as estórias foram inúmeras, alimentando muitas conversas nos meses seguintes.

A receita que vou associar a esta entrada é a de um bolo que a minha mãe faz sempre em ocasiões especiais e que eu gosto muito. Penso que já o coloquei noutro blogue, mas desta vez a fotografia é original, isto é este bolo foi mesmo feito pela minha mãe.
Para este bolo são necessários os seguintes ingredientes: 500 g de açúcar, 250 g de miolo de amêndoa, 9 gemas de ovos, 250 g de batatas cozidas e raladas, 50 g de manteiga, 4 claras de ovos, 1 colher de chá de fermento. Bate-se o açúcar com as gemas até formar um creme. Deita-se em seguida a manteiga derretida e continua-se a bater. Mistura-se depois a batata cozida, passada pelo passe-vite e envolve-se bem, ligando a batata ao creme. Junta-se o fermento e as claras em castelo bem firme, envolvendo lentamente, e, por último, a amêndoa sem pele passada pela máquina. Depois da massa bem ligada vai ao forno em forma redonda sem buraco, com o fundo forrado de papel vegetal, também untado e polvilhado de farinha. Deve cozer em forno médio durante 50 a 55 minutos. A minha cobertura preferida para este bolo é de chocolate preto.

terça-feira, 23 de fevereiro de 2010

Novos materiais: o deslumbramento pelos plásticos


Nos anos sessenta os plásticos popularizaram-se e começaram a ser usados em objectos do quotidiano. Já neste blogue me referi aos ramos de rosas e outras flores de plástico, com que se colocavam numa jarra em cima dos frigoríficos ou mesmo noutros locais mais dignos. Também me recordo que nos anos sessenta se usavam umas pequenas peças de plástico que se encaixavam nos ponta dos saltos, que na altura eram finos, para deste modo os proteger do rápido desgaste que tinham. Estas pequenas “cápsulas” eram colocadas em água quente para dilatarem e depois enfiadas nos saltos dos sapatos. Havia de várias dimensões mas eram sempre transparentes.


Mas importante mesmo foi o aparecimento das BICs em dois modelos, as clássicas, alaranjadas e de ponta final, e, as “cristal” para quem gostava que escrever com mais paixão. Estas primeiras esferográficas eram usadas até ao limite da tinta, como um bem precioso ao qual era necessário prolongar a vida útil. Quando deixavam de escrever “aqueciam-se” ligeiramente, com a chama de um fósforo para que a tinta voltasse a fluir. Os plásticos invadiram também os materiais escolares. A ardósia e a madeira dos estojos de lápis foram substituídas pelas cores berrantes dos novos produtos.

Claro que às cozinhas também começaram a chegar objectos de plástico. Mas fomos muito para além disso. Digamos que alguns dos primeiros objectos procuraram imitar e tornar acessível às classes com menos posses alguns produtos de luxo, como o caso do pano de tabuleiro da imagem superior. Só posteriormente começou a existir uma maior preocupação em tirar partido das suas propriedades. E nesta fase pode dizer-se que se atingiu o excesso. Por exemplo, recordo-me de na casa do Cubal a mobília de sala ser forrada a plástico cor-de-rosa, sendo extremamente desconfortável num clima quente, para além de qualquer outro tipo de considerações de natureza estética. Noutro local em que vivi, o Songo, toda a “loiça” era de baquelite, sendo os pratos das mais variadas cores. Este material, inventado em 1909, foi dos primeiros plásticos a usado em produtos de cozinha e mesa devido à sua resistência ao calor. Hoje algumas destes artigos são peças de colecção.

É provável que o pão de fiambre e queijo a que me vou referir tenha repousado alguma vez sobre um prato de baquelite de cor berrante. Aliás, pensando bem não me recordo deste material existir em cores discretas! Quando se vendia em conjuntos cada peça tinha a sua cor, valorizando-se os contrastes.


Para este pão utilizei: 2 e mais 1/4 chávenas de farinha, 6 ovos, 1 chávena bem cheia de margarina, 1 e mais 1/2 chávena de leite, 1 e mais 1/2 chávena de fiambre cortado aos cubos pequenos, 4 colheres de chá de fermento em pó, 1 prato pequeno de queijo ralado e sal q.b.. Bati a margarina até ficar esbranquiçada. Depois juntei os ovos interiros, uma a um, batendo bem. A seguir, adicionei a farinha peneirada com o fermento, alternando com o leite. Por último, juntei o queijo ralado e um pouco de sal refinado. Mexi bem e levei ao forno numa forma de bolo inglês forrada com papel vegetal.

Cinderelas, bailes e rainhas de festas


Este fim-de-semana assisti a um programa na televisão onde foi referida a cidade do Cubal, um dos locais onde vivi em Angola. Parte da importância deste local era devido ao facto do Caminho de Ferro de Benguela ter aqui algumas das suas oficinas mais importantes. Anteriormente o Cubal tinha-se destacado por ser um concelho rico, devido às grandes fazendas de sisal. Porém, com o aparecimento de materiais plásticos o valor deste produto caiu nos mercados internacionais de tal forma que o Cubal que eu conheci no início da década de setenta já pouco tinha a ver com o seu esplendor anterior.

Como todas as terras tinha as suas particularidades e uma delas era o facto de ser uma cidade com uma percentagem grande de população jovem, o que lhe dava grande animação. Existiam mesmo dois grandes clubes, que estavam constantemente a organizar festas. Por isso, me lembrei de um dos livros que mais gostava quando era criança, A Gata Borralheira, que permitia visualizar em relevo os episódios mais significativos desta estória. Também no cubal existiam cinderelas e príncipes que durante a semana estudavam e pensavam no próximo baile.

Recordo-me que eram sempre festas que começavam ao sábado, salvo erro depois do jantar, e tinham continuação no dia seguinte à tarde, prolongando-se depois até à meia-noite. Hora à qual as cinderelas eram conduzidas rapidamente para casa, por uns pais já cansados de tanta festa. O programa não variava muito. As famílias reservavam as suas mesas e levavam por vezes alguns doces ou salgados para a ceia e para o lanche. Mas o mais importante era o baile, intervalado com o jogo do loto, com concursos diversos e com sorteios. Os boletins do loto serviam depois para votar na rainha da festa, que seria coroada no final com direito a uma faixa colorida e, às vezes, a uma coroa de cartão.

Tenho que confessar que nunca gostei muito de dançar, mas no Cubal não havia como escapar a estes bailes. Entre aqueles de que me lembro melhor destaco o baile de finalistas do Colégio Eça de Queiróz em que participei também como organizadora. Fizémos mesmo um ensaio, em minha casa, para nos prepararmos para a valsa inicial. Os pares já estavam definidos. Entrámos na sala dois a dois, as meninas todas elegantes de vestidos compridos e com uma flor branca no cabelo e os rapazes com o seus melhores fatos. Ainda tenho fotografias desse baile e recordo-me mesmo de quem foram a rainha e o rei.

Durante a semana o clube da cidade era utilizado como cinema. Dia sim, dia não passavam um novo filme. É bom recordar que nestes locais se assistia todo o tipo de filmes. Lembro-me que na altura os meus pais ainda não me deixavam ver filmes para maiores de 16 anos, porque ainda não os tinha, mas via todos os outros. Por isso, tive uma formação muito eclética em termos cinematográficos. Lembro-me de várias séries de filmes, como os da Rita Pavone, da Marisol, do Joselito e de um outro actor italiano que já não recordo o nome, mas que era muito popular. Para além destes, mais próprios para cinderelas, também via filmes de cowboys, de mosquetereiros, do Zorro, etc..

É provável que numa destas festas a minha mãe tenha levado um bolo que fazia com muita frequência - o bolo de milho. Hoje quando faço estas receitas fico espantada com a quantidade açúcar e de ovos que levam, mas a verdade é que são esses ingredientes, juntamente com a utilização de manteiga de boa qualidade, que dão a estes bolos um excelente sabor. Tenho que confessar que cada dentada numa destas fatias me remete para uma outra época, sem com isso ser transportada por qualquer sentimento de saudosismo. Afinal através da realização de um simples bolo temos a possibilidade de regressar ao passado sempre que quisermos.

Mas regressemos ao bolo de milho, para o qual foi necessário utilizar os seguintes ingredientes: 400 g de açúcar, 100 g de farinha de milho fina, 7 ovos, 120 g de manteiga, 2 colheres de café de fermento em pó e 1 colher de chá de essência de baunilha. Bati muito bem o açúcar com a manteiga, a qual tinha sido previamente derretida. Acrescentei os ovos, um a um, batendo bem entre cada adição. Por último juntei a farinha peneirada com o fermento e a essência de baunilha. Bate-se bem e leva-se ao forno, em forma untada, de preferência também forrada de papel vegetal para cozinha. Embora o tivesse feito numa forma redonda penso que o mais seguro é fazer em forma de bolo inglês forrada. Coze em forno médio, durante 45 a 60 minutos, tendo o cuidado de não o deixar cozer muito.

sábado, 20 de fevereiro de 2010

Os cadernos da 2º classe: exercícios de imaginação ou o mais perfeito delírio



Sempre que nas minhas arrumações encontro os cadernos da 2º classe, feita numa escola oficial no Bocoio, perto do Lobito, vila a que já me referi, não resisto a voltar a lê-los e a pensar como foi possível que, vivendo em África, me tivessem ensinado aquele tipo de coisas. Talvez por isso quando passei uns meses em Portugal, na minha 3ª classe, tive um enorme supresa ao visualizar um rebanho de ovelhas. Eu não estava preparada para ver um grupo de animais sujos, mal encarados e fazendo uns ruídos que não eram de todo agradáveis. Os meus pais tiveram de me convencer com uma certa veemência que as ovelhas eram mesmo assim. Eu, graças ao que me tinham ensinado, imaginava os referidos animais como seres de um branco imaculado, balindo de forma melódica e comportando-se como uma espécie de animais de companhia. A verdade é que até hoje não simpatizo com as ovelhas! Acho que fui atraiçoada! Prefiro muito mais as cabrinhas, com as quais nunca me enganaram.

Os meus cadernos da 2ª classe explicam em parte esta situação. Imaginem o que é para uma criança que vive numa região tropical fazer uma cópia em que escrevia o seguinte: “Tinha chegado o mês de S. João. Tudo quanto o olhar abrangia eram campinas de trigo loiro, salpicadas de onde a onde de papoilas vermelhas, em que pousavam grandes borboletas brancas. Era o tempo das ceifas. O trigo estava maduro. Homens e mulheres de foice em punho, iam segando a seara, que outros atrás vinham enfeixando em molhos. O calor era de abrasar, mas o rosto das ceifeiras, tisnado do Sol, era sempre aberto e jovial. Grandes carradas de trigo em feixes iam chegando à eira, para a debulha”. Há que confessar que é preciso uma imaginação delirante para uma criança recriar um cenário deste tipo, quando o que podia observar à sua volta naquela região era a savana e plantações de sisal. Ainda hoje esta realidade não me diz nada! Para além disso esta imagem de mulheres que trabalham arduamente, mas estão sempre de rosto “aberto e jovial”, coloca a pergunta, e os homens? Seria óbvio que estariam  com um ar carrancudo. Para rematar esta brilhante lição ainda me colocaram perante o seguinte problema: “O Rui matou 60 borboletas em 5 dias. Quantas matou por dia?” Pergunto-me como sobrevivemos e até conseguimos ser pessoas com algumas preocupações ambientais depois de tudo isto! Talvez seja um bom tema de investigação, tentar compreender como se consegue “inverter” as mensagens que recebemos na escola, para o bem e para o mal.

Numa das lições seguintes, tanto quanto me apercebo pelos cadernos elas eram temáticas, fiz uma cópia sobre a “defesa dos frutos”. Há aqui alguma contradição entre a mortandade infligida às borboletas e a preocupação com os frutos. Ou talvez não! Provavelmente é uma visão antropocêntrica. O Homem come os frutos mas não se alimenta de borboletas. Na cópia desse dia escrevia o seguinte: “O Fernando António colheu no quintal uma bela maçã e preparava-se para a saborear com seus irmãos. Foi a que primeiro amadureceu. Tinha cor tão rosada que fazia crescer água na boca. Devia ser deliciosa. Mas, ao abri-la, verificaram que tinha dentro uma lagarta! - Mal empregada! - disseram todos. Quem havia de dizer que era bichosa! Examinaram a casca da maçã. Não se via nenhum orifício. Por onde teria entrado a lagarta?” É sem dúvida uma história plena de mistério, porém revela um certo espírito científico. A causa para tão estranha presença foi explicada pelo pai das crianças no ditado que a professora fez posteriormente: “aquelas borboletas tão lindas, atrás das quais vós correis na primavera, puseram os ovos nas flores da macieira, quando às flores sucederam os frutos, esses ovos tão pequeninos que mal se viam ficaram dentro deles e lá se desenvolveram até nascerem as lagartas”. Não sei se esta explicação estará certa em termos biológicos, mas a seguir foi-nos pedido para fazer uma redacção que não era mais do que a resposta a duas perguntas colocadas pela professora. Numa delas eramos questionadas sobre a utilidade dos frutos, tendo eu respondido que “os frutos servem para a gente comer e para se fazer doces e compotas”. Isto já era revelador de que estava ali a futura autora de um blogue de culinária!

Claro que com toda esta estória sobre maçãs só poderia terminar num bolo feito com a referida fruta e desta vez não estava "bichosa". Aliás, já nem é preciso explicar às  crianças como é que as lagartas aparecem na fruta, porque essa é uma realidade desconhecida pelo menos para quem só frequenta supermercados. Mas regressando à receita do bolo de maçã, esta é mais uma daqueles bolos que eu não poderei fazer com frequência. Já me tinha esquecido como este bolo é agradável! Deveria ter ido inteiro para casa dos meus pais, porém eles só o irão ver no blogue o que é uma tortura. Amanhã compensá-los-ei com outro bolo para o lanche.


No bolo de maçã utilizei os seguintes ingredientes: 4 ovos, o mesmo peso dos ovos em açúcar e em farinha, 2 colheres de chá de fermento em pó, 100 g de manteiga, 3 maçãs grandes. Primeiro bati o açúcar com a manteiga derretida. Juntei, alternadamente, os ovos, um a um, e a farinha misturada com o fermento. À parte, cortei as maçãs em fatias finas. Untei uma forma, neste caso de bolo inglês mas que poderia ter sido redonda, e polvilhei de farinha. Por segurança, também a forrei com papel vegetal, que voltei a untar no fundo. Polvilhei este fundo com açúcar e canela, coloquei uma camada de de maçãs fatiadas e depois deitei metada da massa. Voltei a colocar outra camada de maçãs e depois o resto da massa. Terminei com nova camada de maçã. Polvilhei com açúcar e canela e levei ao forno durante cerca de 50 minutos.

segunda-feira, 15 de fevereiro de 2010

Objectos a transportar numa viagem: água, uma lanterna e um bom farnel


Este velhinho filtro de água, que há muitos anos não é utilizado, acompanhou sempre os meus pais em Angola nas suas inúmeras deslocações. É possível que até tenham tido vários, porque algum se pode ter partido, mas este é o que permanece. No seu interior possui um filtro (vela) que permite à água passar da parte de cima para o espaço inferior. Recordo-me que estas "velas" eram substituídas regularmente, e, para além disso também eram esfregadas com uma escova para retirar os resíduos que nelas se depositavam. Enquanto fui criança a minha mãe não confiava de todo na sua eficácia, por isso a água era previamente fervida durante quinze minutos. Eram cuidados necessários num país tropical onde as águas em zonas do interior ainda não eram tratadas.

A escolha desta imagem resultou de ter falado ontem com o meu pai sobre as viagens que se faziam por picadas às vezes em muito mau estado, em particular, na altura das chuvas. Havia uma expressão muito engraçada que em Angola se utilizava com grande convicção, quando uma estrada até nem tinha muitos buracos - pode ficar descansado que a estrada é uma pista. Este conceito de pista faria certamente sorrir muita gente se imaginassem o tipo de estradas a que era aplicado. Isto tudo para referir como era importante providenciar alguns objectos básicos quando se fazia uma viagem, como água potável fresca guardada em termos. Mas também era preciso pensar numa lanterna, porque nunca se sabia quando o carro iria avariar e se ficariamos no meio do mato, assim como uma merenda pelas mesmas razões. Passados tantos anos confesso que ainda sou atraída pela compra de lanternas, considero-as um objecto extremamente útil mesmo viajando em auto-estradas.

Era comum sair de casa cedo para evitar as horas de maior calor. Por isso, nesses dias madrugava-se para haver tempo de preparar todas as "bicuatas". Os meus pais compensavam-me por estes horários tão vespertinos, com a possibilidade de beber um Cê Cê Mel, que não era mais do que uma bebida de chocolate enlatada. Na altura era possuída por uma falta de apetite crónica, com a qual lhes infernizei a vida. Apenas apreciava coisas muito apaladadas, que não me permitiam comer a toda a hora.

Mas regressemos às viagens. O primeiro carro do meu pai em Angola, foi uma carrinha Morris, já muito velha, cujas portas fechavam com dificuldade. Uma delas era mesmo atada com um cordel. Também tinha outras particularidades, como só pegar de marcha atrás ou por vezes ficar sem travões. Nestes locais mais do interior não existiam mecânicos, por isso cada um aprendia a desembaraçar-se sozinho. O meu pai ainda mantém alguma criatividade, que eu julgo em excesso, quando há qualquer avaria no carro. Quanto a mim telefono logo para o seguro ou para uma oficina conhecida, mas o meu pai continua a ter tendência para a improvisação, como se estivesse ainda num meio sem soluções fáceis.

Nas viagens nunca se sabia muito bem se era possível cumprir horários uma vez que existiam sempre muitos imprevistos. Por exemplo, lembro-me que uma viagem do Cubal para Benguela poderia necessitar de muito mais horas caso tivesse chovido o que provocava que algumas zonas mais baixas ficassem alagadas, impossibilitando mesmo a passagem a camiões e a jeeps. Para precaver situações deste tipo a minha mãe preparava sempre um farnel, do qual fazia muitas vezes parte o folar à minha moda que a seguir transcrevo. Esta é uma receita com origem na serra algarvia, que eu comi toda a minha vida. A massa fica com um sabor delicioso, devido à aguardente e à erva-doce.


Como ingredientes a receita original refere: 250 g de açúcar, 500 g de farinha de trigo; 4 ovos; 1 colher de sopa de fermento em pó; 1 colher de sopa de margarina; 1 colher de sopa de banha; 2 colheres de sopa de azeite; 1 cálice de aguardente; 1 colher de sobremesa de erva-doce moída; 2 colheres de chá de canela; 1 pitada de sal. Eu resolvi substituir a banha por uma outra colher de sopa de azeite e também não coloquei sal.
Juntei as gorduras e levei ao microondas alguns segundos apenas para derreter a manteiga. Juntei depois a gordura aos outros ingredientes, tendo tido o cuidado de peneirar a farinha com o fermento, e amassei muito bem até obter um produto homogéneo. Envolvi num pouco de farinha e deixei descansar 15 minutos. Fiz duas bolas que enfarinhei e levei ao forno a cozer em temperatura moderada. Também poderia ter colocado a massa numa forma untada de manteiga e polvilhada de farinha.

sábado, 13 de fevereiro de 2010

Jacarés, porcos e outra bicharada


Enquanto estiveram em Angola os meus pais habitaram em vários locais, com predominância para o distrito do Quanza Sul, mas também passaram pelo Uíge, Benguela e Luanda. Nem sempre viveram em cidades, a maior parte do tempo foi passado em terras pequenas do interior, a que se designava de forma usual como o "mato". Por isso, as minhas memórias não são as de uma urbanita típica. Isto vem a propósito de justificar o título que dei a esta entrada "jacarés, porcos e outra bicharada".

A determinada altura, não sei bem explicar porquê, mas é provável que alguém lhes tenha oferecido e para não serem antipáticos não o recusaram, os meus pais passaram a ter um jacaré como animal de estimação. O dito réptil, que não era muito grande, vivia num espaço com vegetação e água, sendo alimentado principescamente com carne de caça ou mesmo com galinhas na falta da primeira. Mas a despesa que dava e as preocupações de segurança fizeram com que o oferecessem rapidamente. Não me recordo do pobre jacaré, mas ainda temos algumas fotografias dele. Isto para dizer que sempre vivi rodeada de animais, uns mais exóticos do que outros.

Como as lojas não abundavam por aqueles "matos" fora e o dinheiro também não era muito, as pessoas presenteavam-se com porcos, cabritos, coelho, galinhas, ovos, etc.. O resultado era que passado pouco tempo depois de estar a viver num determinado local já existia uma série de bicharada em casa. O problema é que com excepção das galinhas, sempre olhei para estes seres como animais de estimação, a quem gostava de dar um nome e de acompanhar no seu dia a dia. Claro que esta afeição pelos animais não me permitia imaginar que algum dia um deles fosse parar ao meu prato. Hoje reconheço e agradeço a enorme sensibilidade dos meus pais por nunca me terem feito viver um drama desse tipo. Por isso, sempre que mudavam de localidade viam-se obrigados a vender toda aquela bicharada que se tinha acumulado. Mas nunca faltava comprador porque estavam sempre muito bem alimentados.

Talvez devido a esta minha proximidade com este tipo de animais achei de grande violência um filme que chegou a ter algum sucesso há alguns anos atrás - "O porquinho Babe". Quase que me levantei e saí do cinema, porque pareceu-me uma história muito cruel alimentar um animal para depois o comer, mas curiosamente as pessoas com quem estava não compreenderam a minha reacção e até lhes pareceu um filme muito "ternurento". Ainda não me tornei vegetariana, porém não como muita carne e filmes com animais é algo que evito ver.

A propósito de porcos recordo-me do Ébo, na região do Amboim, onde acabámos por ter uma série de porquinhos que todos os dias necessitavam de ser alimentados. Porque embora pudessem andar à solta não nos podemos esquecer que estes animais eram presa fácil e muito apetecida para os felinos e outros predadores que por lá rondavam. Principalmente à noite em que precisavam de ficar bem protegidos.

A receita que hoje fiz tem exactamente a ver com um rolo de carne, neste caso de porco. É uma cedência ao meu lado mais ligado ao que agora se designa como biocentrismo senciente. Mas neste meu projecto de reprodução das receitas da minha mãe terei de enveredar por essa via com frequências. Aliás, também considero que em termos de saúde deve haver o cuidado de ingerir proteínas animas, por serem as mais completas. Mas voltando ao rolo de carne, de acordo com a versão original que encontro no livro da minha mãe e que eu alterei, deveria ter utilizado: 200 g de carne de vaca, 300 g de carne de porco, 50 g de linguiça, 100g de queijo ralado, 1 cálice de vinho do Porto, 4 ovos, 20 bolachas de água e sal, 50 g de toucinho fumado, 1 colher de chá de fermento em pó, noz moscada, sal e pimenta. As carnes e a linguiça crua deveriam ser passadas pela máquina de picar, acrescentando-se todos os outros ingredientes. Depois de bem ligado deveria ter feito um croquete grande que enrolaria num pano de algodão de forma à carne ficar bem junta. As pontas deveriam ser atadas com um fio que depois se deveria prender às asas de um tacho onde cozeria em banho maria, mas sem tocar na água colocada no fundo do tacho. Deveria cozer durante uma hora ou pouco mais. Logo que cozido deveria retirar-se e deixar arrefecer dentro do pano. Só se retiraria do pano quando estivesse frio. Seria depois coberto com molho de tomate. Pode-se dizer por esta descrição que é uma receita típica dos anos sessenta, hoje não há tempo, pelo menos em casa, para este tipo de preparações.


Assim, fiz algumas simplificações. Mas posso dizer que o produto final é um rolo de carne com um sabor extraordinário. Não tem nada que ver com os rolos de carne normais que fazemos, e, muito menos com aqueles que comemos em restaurantes. Utilizei 1 kg de lombo de porco picado a que juntei 2 ovos inteiros, 10 bolachas trituradas, 1 linguiça (chouriço fino e pequeno) também triturada em conjunto com as bolachas, 2 cálices de vinho do Porto, 100 g de queijo parmesão ralado, 1 colher de chá de fermento em pó e a noz-moscada. Esta quantidade carne deu para fazer dois rolos que coloquei num tabuleiro forrado com papel vegetal de cozinha. Por cima de cada rolo coloquei pequenas nozes de manteiga. Levei ao forno cerca de 45 minutos.

quinta-feira, 11 de fevereiro de 2010

De braço dado com as bonecas regionais portuguesas


Tenho uma pequena colecção de bonecas regionais portuguesas, que me foram oferecidas, algumas delas, em festas infantis, realizadas a bordo dos navios que faziam as viagens entre Portugal e Angola. Não têm nada a ver com as bonecas de plástico que agora enconntramos nas lojas para turistas. São feitas de palha e forradas a pano, com roupas coloridas e bordadas. Mas o aspecto que mais me atrai é o facto de ambos os braços estarem dobrados de forma a permitir abraçá-las umas às outras.Não sei qual a origem deste tipo de característica, provavelmente pretender-se-ia passar a ideia de uma nação com várias identidades, mas em que todos partilhariam os mesmos valores. Na linha daquilo que os livros da escola primária da época do Estado Novo também transmitiam, reforçando de igual modo uma visão idílica do meio rural.

Mas regressemos às viagens de barco em que era necessário ocupar os passageiros, à semelhança do que hoje se faz nos voos intercontinentais. Para além dos banhos de piscina e das quatro refeições, servidas  em sala própria (pequeno-almoço, almoço, lanche e jantar), era necessário providenciar um programa de actividades diário. Assim, existia mesmo um pequeno jornal diário, distribuído a todos os passageiros, onde se dava conta do que os esperava em cada dia, assim como de algumas notícias gerais com carácter mais lúdico. Recordo entre outros concursos o das milhas. Faziamos apostas sobre o número de milhas que o barco fazia em cada dia, sendo o nome do vencedor divulgado no dia seguinte com grande destaque quer no jornal quer num quadro localizado num dos convés. Para além disso, existiam o bingo e as corridas de cavalos (madeira), assim como uma série de campeonatos de ping-pong e diversos outros jogos. É provável que numa dessas actividades tenha sido "premiada" com estas bonecas.

Normalmente os navios faziam paragens no Funchal, nas Canárias e em S.Tomé e Príncipe. Recordo que as primeiras vezes em que aportei no Funchal ainda não existia cais acostável. O navio ficava ao largo e os passageiros que queriam ir a terra faziam-no em lanchas. Paralelamente existia todo um comércio organizado de pequenos barcos que vinham vender frutas e bordados. Por vezes, chegavam mesmo a deixar esses comerciantes subirem a bordo e a colocarem as suas mercadorias no convés. Quando isso não era permitido as vendas eram feitas de igual modo, mas a partir dos pequenos barcos e com a ajuda de algum tripulante que servia de intermediário no transporte dos produtos até ao comprador. Recordo-me de uma das viagens em que a chegada ao Funchal foi um alívio, depois de dois dias de mau tempo. A minha mãe decidiu ir a terra beber um sumo de maracujá, que ela sempre considerou como um bom remédio para os enjoos. Contudo, a agitação do mar tornou a pequena viagem de lancha até à cidade, assim como o respectivo regresso ao navio, passado poucas horas, numa odisseia, porque era necessário esperar por uma onda favorável para conseguir mudar de embarcação, sem perigo de cair ao mar. Porém, lá conseguimos beber os nossos sumos de maracujá e fazer algumas pequenas compras.

A viagem depois continuava, com escala nas Canárias ou, o que era o mais normal, em S. Tomé e Príncipe. Ali nunca saímos do barco, porque a distância até terra era maior e a minha mãe tinha medo dos temporais que nesta região eram frequentes. Mas à semelhança da Madeira também vinham vender produtos a bordo. Lembro-me de colares de sementes e de objectos feitos com carapaça de tartaruga. Mas o que mais retive foi o colorido e a animação no convés, transformado por alguma horas em feira de produtos tropicais.

Todos este reboliço não interferia com os horários das refeições, nomeadamente com a  hora do lanche. Quando esta se aproximava começava-se a sentir um cheiro a pães de leite acabados de fazer e a bolos ainda quentes. Era absolutamente irresístivel e todos se precipitavam para a sala das refeições, logo que era anunciada a sua abertura. Hoje lembrando-me desses lanches e das duas bonecas (alentejanas) resolvi fazer o bolo alentejano, cuja receita se encontra no livro da minha mãe. Para este bolo são necessários: 150 g de açúcar, 3 ovos; 250 g de farinha de trigo; 2 dl de mel; 1 dl de azeite; 1 colher de sopa de fermento em pó; 1 colher de chá de canela; raspa de 1 limão. Batem-se as gemas com o açúcar até obter um creme esbranquiçado. Adicionam-se, aos poucos, o mel e o azeite. Bate-se tudo muito bem. Junta-se a canela, a raspa do limão e a farinha peneirada com o fermento. Por último, juntam-se as claras em castelo bem firme. Coze em lume brando durante 30 a 40 minutos. Nota: pode ser necessário colocar um papel de alumínio em cima, depois dos 20 minutos de cozedura, se começar a ficar muito dourado.

domingo, 7 de fevereiro de 2010

Assim se viveram os anos sessenta na pacata vila do Bocoio


Já não sei onde me ofereceram esta mobília de sala, mas ela retrata bem os materiais e o gosto dos anos sessenta, fazendo-me lembrar um período em que vivi no Bocoio também designada à época por Vila Sousa Lara. Relativamente perto do Lobito e encostada a uma serra onde em tempos mais recuados teria ocorrido um desatre de avião, o concelho do Bocoio era um local com características particulares. A maior parte da região era ocupada por fazendas de sisal, de portugueses e de alemães, onde realizavam torneios de tiro aos pratos e aos pombos. Estes torneios eram ocasiões especiais em que as senhoras se procuravam evidenciar pela elegância. Uma espécie de corridas de Ascott à escala do Bocoio! Aliás, esta vila era conhecida por ter uma excelente equipa de basquette, vencedora de muitos torneios a nível regional, e, também por ter um clube onde se realizavam grandes bailes. Tudo era motivo para a realização de uma festa! Recordo-me que na altura, como os meus 8 ou 9 anos, sonhava em ser estilista. Por isso, os bailes e os torneios eram ocasiões que aguardava com ansiedade, pela quantidade de ideias que recolhia para desenhar os meus modelos de roupa e de sapatos.

No Bocoio existia, à semelhança de muitas outras terras em Angola, o ritual da abertura dos "fardos". Estes eram caixotes de roupas usadas que vinham dos Estados Unidos. Encontravam-se as coisas mais incríveis nestes "fardos". Fardas cheias de galões dourados, vestidos de baile, etc.. Lembro-me de uma loja que sempre que abria um "fardo" avisava a minha mãe e uma amiga para serem as primeiras a escolher. Era deste modo que a partir destas roupas usadas, mas às vezes de muito boa qualidade, se faziam autênticas maravilhas com a ajuda dos moldes da BURDA. Inclusivamente chapéus, porque era de "bom tom", mas principalmente porque era  "divertido" ir aos casamentos de chapéu. Também eu me transformei numa criança elegante, com vestidos que a minha mãe me fazia cheios de rendas, bordados e folhos. Até cheguei a ganhar um concurso de máscaras de Carnaval.  Tudo isto é bastante curioso em termos sociológicos, se atendermos à dimensão da terra e à sua população que era muito reduzida.

Uma das imagens do Bocoio que nunca me esqueci foi a dos chás que se tomavam numa pensão, onde estiveram instalados, durante meses, uns amigos dos meus pais. Todas as tardes, na altura do cacimbo, um grupo de cerca de seis a oito pessoas amigas, juntava-se para beber chá preto (Likungo) e comer wafers de baunilha de pacotes. No fundo, era apenas uma desculpa para conviverem e trocarem impressões sobre os últimos acontecimentos. Este ritual era noutras alturas substituído por partidas de ténis, num campo de cimento localizado em frente do hospital e da igreja. Eu costumava andar de patins com o filho de um destes casais, fazendo sempre tristes figuras, porque os meus patins eram todos de plástico e os dele tinham rodas de metal. Mas por segurança nunca me compraram outros patins, achavam que aqueles já permitiam uma velocidade suficiente.  Também recordo que junto deste campo de ténis, que em simultâneo também servia de ringue de patinagem, existia um pequeno busto, em mármore, do Sousa Lara, com um canteiro de violetas africanas a toda a volta. Foi a partir dai que fiquei a gostar de violetas, porque as apanhava diariamente para levar um pequeno ramo para casa.

O Pepetela faz por vezes referência ao Bocoio em alguns dos seus livros. Creio mesmo que os seus pais viviam lá e faziam parte do grupo de amigos dos meus pais. Recordo-os como um casal, que já não era jovem, mas jogava ténis bastante bem. Hoje pensamos que seriam os pais do Pepetela, embora eles na altura fossem bastante discretos relativamente ao filho. Digamos que o curioso nesta pequena vila é o facto de ao viver-se num certo isolamento as pessoas serem obrigadas a tirar partido das mais pequenas coisas.

Como não tenho um molde próprio para fazer waffers, aliás as que se comiam também eram de pacote como já referi, de uma marca cujo símbolo era um trevo de quatro folhas, lembrei-me de associar a esta entrada uns docinhos que a minha mãe fazia - os cortadinhos de Alpiarça, bolos altamente calóricos, típicos de uma época em que ninguém se preocupava com os excessos de açúcar e de gorduras. Para preparar os referidos quadradinhos juntei 500 g de açúcar a 6 ovos inteiros. Bati bem (5 minutos). Depois acrescentei 3 colheres bem cheias de farinha e voltei a bater mais um pouco. Foi ao forno num tabuleiro untado de margarida e forrado com papel vegetal, que também foi untado de margarina e polvilhado de farinha. Depois da massa cozida, o que leva cerca de 40 a 50 minutos, retira-se do tabuleiro e coloca-se  sobre papel vegetal polvilhado de açúcar. Cortam-se triângulos que se enrolam em açúcar.


Penso que os deixei ficar demasiado tempo no forno, mas recordo que eles ficavam com esta cor acastanhada. A partir dos 20 minutos, para não tostarem muito, coloquei uma folha de papel de alumínio em cima. Outro truque que também uso é ir passando com a faca sobre o papel vegetal depois de ter desenformado o bolo. Deste modo consegue-se que o bolo se solte com mais facilidade do papel, principalmente nestes casos em que o excesso de açúcar leva à formação de caramelo, que por vezes se pega ao papel.

sábado, 6 de fevereiro de 2010

Seria uma sereia? Ou seria antes um salmão?


A inspiração para esta entrada veio de um livro que ando a ler e se intitula a "A pesca do salmão no Iémen", da autoria de Paul Tornay e editado pela ASA. Como o nome sugere trata-se de uma sátira absolutamente deliciosa onde se analisam as complexas relações entre ciência e política ao mesmo tempo em que também está implícita uma certa crítica aos valores pelos quais se gere o mundo académico no presente. O protagonista, que dá pelo nome de Dr. Alfred Jones escreveu um artigo sobre os "Efeitos da crescente acidez da água na larva da mosca-de-água", o qual lhe grangeou algum reconhecimento. Porém, a sua vida foi alterada quando lhe pediram para criar um rio com salmões no Iémen. O projecto, de início considerado como absurdo, acabou por ter continuidade. Mas não vou contar aqui mais nada, para não tirar o prazer da leitura a quem se interessar por tão extravagante temática.

Ao olhar para uma pequenina peixeira que faz parte de um trem de cozinha em cobre, que me ofereceram em Angola, imaginei logo uma fotografia com um peixe dentro, cujas extremidades seriam visíveis a partir dos dois extremos do recipiente. Claro que daí a lembrar-me do marcador do livro que referi em cima, foi coisa de um minuto! É provável que em Angola nunca ninguém tenha pensado na absurda ideia de introduzir o salmão nalgum dos rios que atravessam esse país, mas não por falta de imaginação. A propósito recordo-me de uma pequena estória, totalmente delirante, que correu em Luanda nos inícios dos anos setenta - teria aparecido uma sereia numa poça de água e lama. Este episódio era relatado e discutido, por alguns, como algo verosímil. Foi mesmo objecto de notícias na rádio. Neste momento, poderia dar continuidade a esta estória e imaginar que a bela sereia não era mais do que uma salmão perdido, que através de uma eventual rede de canais existentes no interior do globo teria desembocado em pleno caos urbanístico de Luanda, depois de uma chuvada tropical ter deixado alguns vestígios em ruas não alcatroadas.

Mas regressemos à realidade, que era muito menos interessante. Na altura, o salmão era comprado em latas, cuja origem já não recordo. Não era de modo algum um peixe habitual, por isso o pudim de salmão a que a seguir me vou referir era feito unicamente em dias de festa. Até porque as referidas latas de salmão não eram baratas. A receita é excelente, considero-a mesmo como o melhor destino que se pode dar a um salmão depois de capturado. Um destino que o honra ao fazer destacar a plenitude das suas qualidades organoléticas.

Para a confecção deste pudim a minha mãe refere: 2 latas grandes ou 4 pequenas de salmão (750g aproximadamente de salmão fresco); 2 tomates grandes; 2 cebolas, 2 pequenos pães; 1 colher de sopa bem cheia de manteiga; 3 ovos; 1 frasco de pikles; sal, leite e gindungo. Coloca-se a manteiga e a cebola picada a refogar, mas não se deixa alourar. Junta-se então os tomates maduros, sem peles nem sementes, partidos aos bocadinhos, assim como o gindungo (pimenta) e deixa-se refogar o tomate. Depois deita-se dentro o salmão partido em cubos já limpo de peles e espinhas. Envolve-se no refogado e deixa-se ao fogo a tomar gosto e a cozer o salmão caso este não seja de lata. Aliás, nesta última situação é conveniente ir mexendo e desfazendo-se os cubos de salmão para se obter uma consistência mais homogénea. Numa fase posterior, já depois de retirar do lume junta-se o miolo do pão molhado no leite, os ovos inteiros e os pickles partidos aos bocadinhos (3/4 de frasco). Mexe-se tudo muito bem e vai ao forno (200ºC) a cozer em forma lisa untada de manteiga. Ontem usei uma forma de bolo inglês em pirex, que forrei com papel vegetal para cozinha, por isso não necessitei de untar. Só se deve desenformar depois de frio. Nessa altura deve colocar-se a travessa ligeiramente inclinada para escorrer algum excesso de água que resulte do tomate. Quando estiver completamente frio e escorrido, cobre-se como molho de maionese ou molho de tomate e acompanha-se com ervilhas, couve-flor, alface, etc..


 A minha ideia era fazer uma maionese para cobrir o pudim, mas devido a alguns imprevisto não foi possível, por isso o pudim ficou nesta versão minimalista.

domingo, 31 de janeiro de 2010

O Pantagruel - um ajudante que esteve sempre presente


Antes de ir para Angola, em 1954, o meu pai ofereceu à minha mãe um livro de cozinha - o Pantagruel, da autoria de Bertha Rosa Limpo, que ainda hoje continua a ter novas edições revistas e adaptadas a outra época. Um dos aspectos em que as alterações foram profundas foi no prefácio. Na data desta edição, que infelizmente não consta do livro, mas que imagino poder situar-se entre 1940 e 1954,  a autora referia a determinada altura o seguinte: "Julgo ainda que o meu livro lhes proporcionará alguns momentos de alegria, pois a boa cozinha concorre para existir o bom humor na família. Os homens ficam pelo «beicinho» se, depois de um dia de intenso trabalho, as suas mulheres lhes fizerem servir um jantar apetitoso e bem apresentado. Não se esqueçam que a apresentação desempenha um papel importantissimo. Não basta saber grelhar uma boa carne, assar um bom peixe ou fazer um bolo muito fôfo. É indispensável saber enfeitar um peixe, colocar uma carne na travessa e quais os acompanhamentos que lhes são dados. É imprecíndivel saber armar uma maioneses e tornar os bolos apetecíveis. É preciso gostar antes de comer, para depois saborear com admiração ..."(p. xiii). Curiosamente a autora passa grande parte do prefácio a justificar-se por estar a escrever um livro de cozinha, quando na verdade a sua profissão era cantora lírica. Faz mesmo apelo à figura de um catedrático italiano, que também teria publicado um livro de cozinha, com grande sucesso, nesta mesma altura, para se "desculpar" por estar a escrever sobre este assunto. Porém, é o papel da mulher dona de casa, dedicada quase em exclusivo a fornecer o alimento e o bem estar ao marido e aos filhos que ressalta deste prefácio. Sem saber de toda esta história o meu marido também me ofereceu um Pantagruel, mas desta vez com um prefácio muito distinto deste...

Esta edição possui um texto de Ramada  Curto igualmente interessante, recordando François Rabelais, autor renascentista ligado à criação das figuras de Pantagruel e Gargantua o qual também era "médico" e tratava deste modo os seus doentes: "Alimentava-os de apetitosas viandas, fazia-os beber vinhos capitosos e depois punha-os a destilar em estufas sobreaquecidas. Enquanto eles suavam, Rabelais fazia-os rir, porque «o rir é próprio do homem», contando-lhes «mitologias pantagruélicas» e «crónicas gargantuinas». Grande médico este e saborosa terapêutica! Efectivamente, comer bem, beber bem e rir em francas gargalhadas é o que há de melhor para a saúde e para os humores. O ditado latino «alvus plena non est mens sana», que é como quem diz «estômago cheio, cabeça ôca», era, para Rabelais, uma deplorável tolice. Por isso os seus heróis, o gigante Gargantua e seu filho Pantagruel, gigante ou homem de estatura normal, conforme apetecia ao autor apresentá-lo, devoravam rebanhos, emboracavam tonéis e realizam proezas de forças proporcionais ao que ingeriam. O que não os impedia de pensarem com acêrto» (p. xvi). Desta vez somos remetidos para o excesso, mas também para o prazer associado ao acto de comer.

Este grosso volume do Pantagruel, com 946 páginas nesta edição, acompanhou sempre a minha mãe enquanto esteve em Angola e foi um ajudante precioso, com o qual ela confessa ter aprendido bastante. O livro chegou mesmo a ficar num estado deplorável de tão manuseado que foi. Há alguns anos atrás o meu pai deu uma nova "cara" ao livro, fazendo-lhe uma encadernação luxuosa, a vermelho e dourado, como ele bem merecia pelos serviços prestados à família.

Associado ao Pantagruel só poderia escolher uma receita que de igual modo também tivesse acompanhado sempre a nossa estadia em Angola. É um doce muito singelo - aletria doce, com origem na gastronomia da região de Aveiro, onde é feito para presentear familiares e amigos na altura de batizados ou casamentos. A minha mãe, algarvia de gema, acabou por aderir à aletria depois de casada. Por isso, foi sempre um doce muito comum nos nossos pantagruélicos lanches. A fotografia que associo a esta entrada é a de uma pequena travessa de aletria, preparada hoje pela minha mãe.


Para a sua realização necessitamos de: 250g de aletria, 50g de manteiga, 4 gemas de ovos, 1 l de leite, 300g de açúcar, 1 casca de limão, canela em pau e em pó, sal q.b..Leva-se ao fogo o leite com o pau de canela, uma casquinha de limão, a manteiga e uma pitada de sal. Logo que comece a ferver junta-se a aletria que deve ser partida para ficar mais solta. Mexe-se com um garfo de vez em quando. Logo que esteja cozida junta-se-lhe o açúcar, mexe-se bem e deixa-se ferver mais 5 minutos. À parte, batem-se as gemas de ovos que se adicionam à aletria, mexendo sempre.Volta novamente ao fogo para cozer as gemas, mas deve ter-se o cuidado de não se deixar ferver. Retira-se do fogo e está pronta. Tira-se o pau de canela e a casca de limão, e, deita-se numa travessa ou em pratinhos. Deixa-se arrefecer e enfeita-se com canela, formando desenhos.

De Luanda para o Lobito


Uma das peças mais importantes do meu espólio arqueológico são as ementas das refeições que eram servidas a bordo dos paquetes que faziam o trajecto entre Luanda/Lobito e Lisboa. Nesta caso, tratam-se de imagens das ementas da última viagem, realizada no "Infante Dom Henrique" em Novembro de 1974. Impressas para cada um dos dias e para cada uma das refeições principais, almoço e jantar, apresentavam variações na respectiva organização. Por exemplo, ao almoço eram oferecidos os seguintes itens pela ordem que se segue: acepipes, bufete frio, sopas, peixe, farináceos, ovo, entrada, grelha, bifes, saladas, molhos, queijos, sorvete, frutas e dietas. Por sua vez cada um destes itens incluia várias propostas à escolha. Paralelamente a esta ementa, que parece pantagruélica, na página ao lado era referido como sugestões do chefe para o dia 11 de Novembro de 1974: "peixe cozido com legumes e costeletas de porco grelhadas com limão". Por sua vez, ao jantar a ementa tinha uma composição distinta: sopas, peixe, legumes, entrada, molhos, saladas, doce, frutas e dieta. À semelhança do almoço, no mesmo dia ao jantar, o chefe sugeria: "robalo grelhado com molho de manteiga" e "escalopes de vitela à Holstein". Em todas as ementas era ainda referido que "Se V. Exa. desejar algum prato especial queira dirigir-se ao Maitre d'Hotel com antecedência".


Na verdade o impacto da extensa oferta acabava reduzida, a maior parte das vezes, a pratos bastante singelos. Porém, nas memórias daqueles que fizeram estas viagens permanece a ideia de lautas refeições, servidas com grande requinte e ostentação. Na ementa do dia que escolhi para esta entrada constava ao jantar uma "torta italiana" da qual como é óbvio já não me recordo. Pelo contrário lembro-me bem de uma torta de côco que a minha mãe fazia com muita frequência e que era deliciosa.


Como ingredientes são necessários: 400 g de açúcar, 100 g de manteiga, 125 g de côco ralado e 6 ovos. Batem-se bem os ovos com o açúcar. Junta-se depois a manteiga derretida e por último o côco. Vai ao forno num tabuleiro untado, caso este não seja revestido de teflon, e forrado com papel vegetal de cozinha. Deve estar no forno (200ºC) cerca de 15 a 20 minutos. Depois de cozido, vira-se sobre uma folha de papel vegetal de cozinha polvilhada com côco e enrola-se. A torta dá a ideia de ser recheada de ovos moles, mas na verdade é apenas a massa que num dos lados fica com uma consistência mais apudinada, por isso não a devemos deixar secar muito no forno.

Há um último mistério  a esclarecer. No caso desta viagem o "Infante Dom Henrique" parou primeiro em Luanda, fazendo depois escala no Lobito (mais a sul) de onde partiu directo para Lisboa, o que se traduziu numa viagem de cerca de nove dias sem escala. Poderá parecer monótomo para quem nunca passou pela experiência, mas muito pelo contrário, eram dias totalmente preenchidos de actividades. Às vezes com alguns enjoos, mas nada que um comprimido não resolvesse. De tal modo estes dias eram agradáveis, que o sentimento dominante, quando se chegava ao destino, era o de nostalgia por ter terminado um período de descanso e de despreocupação e ser necessário voltar a enfrentar os problemas do quotidiano. Este é um dos temas a que regressarei em novas entradas.

quinta-feira, 28 de janeiro de 2010

O arranjar das travessas e as influências estéticas da BURDA


Confesso que as travessas e os pratos de servir à mesa, sejam eles em vidro, cerâmica ou mesmo em metal, continuam a ser os meus preferidos, quando penso na preparação e posterior apresentação de uma refeição. Recuso-me mesmo a fazer uso do termo "empratar", por considerar que este está associado a um ambiente mais impessoal, onde prevalece a preparação em série de iguarias para comensais anónimos. Mesmo quando este processo ocorre num grande restaurante, digno de algumas estrelas Michelin, não se pode negar que existe sempre uma mecanização na preparação do prato, procurando-se atingir a não variabilidade no produto final. Em contraste, arranjar uma travessa é um acto único, que não necessita de ser repetido de forma rigorosa. Por outro lado, há ainda a questão da partilha de um objecto que passa pela mão de várias pessoas ou do qual todos retiram o seu quinhão. Isto é, induz uma vertente convival que o prato preparado isoladamente não evoca, este pelo contrário remete para o individualismo da relação entre o meio (comida) e o homem. Talvez esteja a ser muito crítica! Alguns considerarão exactamente o contrário. Mas tudo isto resulta do facto de me recordar da preocupação que a minha mãe sempre teve com o "arranjar" das travessas, as quais deveriam causar algum efeito de surpresa ao chegarem à mesa.

Para além disso, ao observarmos livros ou revistas de cozinhas antigas rapidamente nos apercebemos que existe uma evolução naquilo que consideramos uma boa apresentação. Os nossos valores estéticos são construídos a partir do que percepcionamos diariamente e há que considerar que hoje vivemos num mundo repleto de estimulos visuais, inclusivé relacionados com a alimentação. Essa riqueza é também fruto de uma globalização que se traduz na maior diversidade de ingredientes de que fazemos uso nas nossas cozinhas, em paralelo com o que parece ser um regresso aos valores de uma cozinha mais tradicional e regional. A preocupação crescente com a qualidade do que ingerimos também se está traduzir a nível europeu num regresso à cozinha, vista esta agora como um espaço lúdico e de fruição. Só assim se justifica a enorme variedade de instrumentos que aparecem no mercado, destinados a um novo público ávido de experimentar novos sabores e texturas.

Mas regressando ao tema desta entrada recordo-me que existia uma revista, muita vendida em Angola nas décadas de sessenta e setenta, a BURDA, que exercia uma influência significativa na estética da ornamentação das travessas. Embora fosse uma revista vocacionada principalmente para as donas de casa que à época necessitavam de ser autosuficientes na elaboração do seu próprio vestuário, possuia também algumas páginas dedicadas à culinária. Páginas bastante coloridas e atractivas que se constituiam naquilo que poderia ser considerada uma norma em termos de bom gosto.

Foi ao olhar para uma dessas revistas que me lembrei do lombo de porco assado com cerveja, que eu apresento numa versão minimalista, mas que a minha mãe teria ornamentado provavelmente com uma série de verduras, que seleccionaria em função do contraste das respectivas cores. Eu fico-me pelo essencial deste lombo, o qual possui um excelente sabor, principalmente quando comido frio e em fatias finas.


Como ingredientes utilizam-se: 1,5 kg de lombo de porco, 1 colher de sopa de sal, 1 colher de sobremesa de colorau, 2 laranjas, cerveja q.b., 1 colher de sopa de banha, alhos e gindungo q.b.. Tempera-se o lombo de véspera com os ingredientes acima descritos, excepto a cerveja que só deve ser adicionada no próprio dia em que é assado. Os alhos devem ser amassados com o sal, juntando depois o colorau e o gindungo. Das laranjas só se aproveita o sumo, que se utiliza na marinada. Na altura que vai ao forno rega-se com parte da cerveja. À medida que esta vai secando junta-se mais cerveja, regando o lombo com o molho que entretanto se formou no tabuleiro. O tempo aproximado de cozedura é de 45 minutos, mas pode variar em função do forno e da temperatura.