terça-feira, 6 de Abril de 2010

Açúcareiros, doçuras e caramelo


Estes três açúcareiros são três peças genuínas do meu espólio africano, que para além desses aspectos apenas têm em comum o facto de terem desempenhado uma função idêntica, e, de serem serem os três igualmente kiths, segundo os nosos actuais padrões. Os próprios materiais de que são feitos também são distintos, vão desde a porcelana chinesa à cerâmica/porcelana mais grosseira e ao pirex. O que me atrai hoje nestes objectos é que eles estão em vias de instição. Primeiro porque se começaram a usar aquelas pequeninas pastilhas de adoçante, que são transportadas nas embalagens dos fabricantes. Depois descobriu-se que esses produtos não eram muito bons para a saúde, o aspartane nomeadamente. Para além disso, a meu ver colocar açúcar no chá é um sacrilégio. No café não sei se será, porque não costumo beber!

Mas seja qual for o material, olhando para um açucareiro só podemos ter pensamentos doces, que nos conduzem por sua vez a bolos de caramelo, onde o açúcar foi usado sem qualquer complexo ou fundamentalismo. É o caso deste bolo delícia de caramelo que a minha mãe fazia há muitos anos atrás. Depois ficou esquecido, mas esta Páscoa foi recuperado para gáudio dos gulosos.

Para o bolo utilizei: 1 2/3 chávenas de açúcar; 2 chávenas de farinha; 1 chávena de margarina; 3 ovos; 2 dl de leite; 4 colheres de chá de fermento em pó. Comecei por bater uma chávena de açucar com a margarina. Como utilizei a Becel para cozinha não foi necessário derretê-la previamente. Juntei as gemas uma a uma. À parte, queimei os 2/3 de chávena de açúcar, até ficar em caramelo. Quando assim estiver, junta-se com cuidado o leite que deve estar quente. Mexe-se muito bem, de modo que todo o caramelo fique dissolvido no leite. Em seguida, junta-se ao preparado anterior, mexe-se bem e adiciona-se a farinha com o fermento e, por último, as claras em castelo. Vai ao forno em forma de buraco ao meio, untada de margarina e polvilhada de farinha.

Quando sai do forno coloca-se em cima de uma grelha de bolos para arrefecer. Depois corta-se ao meio e recheia-se. Para esse efeito faz-se um caramelo com 300 g de açúcar a que se junta depois 1/2 chávena de leite quente (com cuidado). Vai-se mexendo até que todo o caramelo se dissolva. Adiciona-se então 3 colheres de sobremesa de manteiga e uma chávena grande miolo de nozes, partido aos bocadinhos. Recheia-se e cobre-se o bolo com este creme, colocando por cima metades de nozes inteiras que também se cobrem de caramelo.

sexta-feira, 2 de Abril de 2010

O fascínio pelo oriente e os bolos de arroz

Em Angola, existia um certo fascínio pelas loiças e móveis orientais. Ainda hoje mantemos algumas peças, das quais já não gostamos muito, mas que há uma décadas atrás foram suficientemente apreciadas para serem compradas. No caso destes pratos nem sei como surgiram. Aliás, até têm sinais de terem tido bastante uso. Seria certamente a atracção pelo exotismo, mas principalmente o facto de não existirem muitas opções em termos de escolha. Isso não significa que alguns destes objectos não fossem esteticamente interessantes. Por exemplo, sempre achei as porcelanas "bago de arroz" muitos bonitas, em particular, as mais simples, sem dourados.

E a propósito deste assunto lembrei-me que o meu pai em jovem gostava muito de bolos de arroz. Procurei no livro e nos cadernos da minha mãe uma receita para estes bolos. Porém, não encontrei nada. Mas lembro-me que ela comprava pacotes de farinha de arroz para utilizar em bolos. Por isso, resolvi alargar a minha pesquisa e tentar encontrar, em vários livros e sites, uma receita para fazer os referidos bolos. Fiquei admirada quando encontrei algumas que nem farinha de arroz levavam e outras em que existia uma mistura entre farinha de arroz e de trigo. Só num livro do século XVIII é que achei uma receita feita unicamente com farinha de arroz. Claro que tive de fazer uns cálculos, porque as unidades de medida eram distintas das actuais.

Assim, utilizei nos meus bolos de arroz: 60 g de farinha de arroz, 220 g de açúcar fino, 4 gemas, 7 claras e o vidrado da casca de 1/2 limão. De acordo com o livro consultado, com excepção das claras, todos os outros ingredientes deveriam ser batidos, com duas colheres (?), durante 15 minutos e só depois misturadas as claras em castelo. Esta massa seria depois colocada em caixas de papel, untadas de manteiga por dentro e cozidas em forno muito brando. Depois de cozidas deveriam ser tiradas das caixas e cobertas com um glace feito com 1 clara de ovo, açúcar fino e algumas gotas de sumo de limão. Regressariam de novo ao forno para secar o glace.

Como é evidente a minha versão foi mais despachada! De qualquer modo forrei as formas com papel vegetal antiaderente em que escrevi com um lápis (na parte exterior) - bolos de arroz. Também coloquei uma tira de papel vegetal atravessada nas formas, mas os conseguir retirar mais facilmente. Não se pode dizer que tenham ficado muito bonitos, mas ficaram bons! Em nada se assemelham aos que se comem nas pastelarias, que acabam por ser uns banais queques. Neste caso, os bolos fazem lembrar um pão-de-ló muito leve. Como me sobrou massa coloquei-a em forminhas de silicone pequenas, mas desconfiada de que o resultado final poderia não ser bom. Contudo, fiquei agradavelmente surpreendida.

domingo, 28 de Março de 2010

Vista Alegre rima com arroz doce


As porcelanas da Vista Alegre sempre foram uma referência de qualidade para a minha família paterna, consideradas mesmo como as únicas a serem dignas poderem ser incluídas na categoria das porcelanas. A colecção de peças antigas desta fábrica é quase uma obrigação familiar. Eu própria já assimilei o hábito, às vezes, deplorável, de inverter pratos e chávenas para verificar qual o símbolo (carimbo), porque como devem saber este evoluiu ao longo do tempo e o maior ou menor valor de uma peça da Vista Alegre depende da sua antiguidade, isto é, do tipo de carimbo que encontramos no reverso.

Acredito que os meus pais, quando foram para Angola na década de cinquenta, não levaram peças da Vista Alegre na sua bagagem. Aliás, esta deveria ser muita reduzida, uma vez que era expectável terem à sua espera uma casa mobilada e apetrechada com loiças e roupas. Claro que a realidade não foi assim tão idílica. A primeira casa em que viveram tinha o tecto a cair, das paredes saía salalé e só quando a minha mãe, por acso, derramou um copo de água no chão é que se apercebeu que este não era de terra batida como imaginava, mas que existia uma camada de cimento por baixo. Isto pode parecer uma visão pouco agradável, mas eles ainda hoje falam desse local com muita saudade. Porque ao fim de algum tempo foi construída uma casa nova e tiveram oportunidade de desenharem todos os móveis e de a decorarem ao seu gosto. Numa outra entrada falarei um pouco mais sobre este local - o Cariango.

Mas regressos às porcelanas da Vista Alegre. Estas também chegavam a Angola na forma de serviços que apetrechavam as casas dos funcionários públicos, mas com modelos que às vezes não se encontravam em Portugal. Claro que quando penso na Vista Alegre não posso deixar de me recordar do arroz doce. A minha mãe toda a vida teceu grandes elogios aos arroz doce feito pela minha avó paterna, que realmente era muito bom! O da minha mãe também é bom, mas fica com consistência e sabor diferentes. A receita que eu hoje recupero é a do arroz doce à moda de Ílhavo, cidade onde nos seus arredores se localiza a fábrica da Vista Alegre.

É tradição em Ílhavo oferecer travessas de arroz doce aos familiares e amigos na altura de acontecimentos familiares importantes, como batizados, casamentos, etc. Por isso, quiz repetir esta tradição e fazer também uma travessa de arroz doce, decorada com canela como a minha mãe me ensinou a fazer. Esta receita de arroz doce difere de outras, mais vulgares no nosso país, por não utilizar leite na sua preparação.

Para preparar o arroz doce servi-me de 250 g de arroz calorino (Bom Sucesso - Companhia das Lezírias), 250 g de açúcar, 3 gemas, casca de limão, 1 colher de sopa de manteiga, sal e canela. Levei ao lume a água (3 vezes o volume do arroz), adicionado-lhe duas cascas de limão e a manteiga, assim como uma pitada de sal. Como começou a ferver juntei o arroz. Logo que voltou a retomar fervurar, reduzi o lume, mexendo de vez enquando até o arroz cozer. Nessa altura adicionei o açúcar e deixei ferver durante mais 5 minutos. Depois incorporei as gemas, ligeiramente batidas, que à parte já tinha misturado com um pouco de arroz quente. Deixei estar ao lume mais 5 minutos, mas sem perbitir que fervesse. No finl, coloquei numa travessa que depois enfeitei com canela. para esse efeito cortei um papel vegetal de forma a obter um desenho, que coloquei por cima do arroz. De seguida polvilhei com canela que tinha colocado dentro de um passador, para deste modo obter um efeito homogéneo.